quinta-feira, 25 de julho de 2019

As quatro rodas

Da última vez que passei por aqui o meu início de semana tinha sido um pouco bruto, visto que o tinha acontecido à minha avó.
No dia seguinte, a história repetiu-se e lá veio o tinoni outra vez. Posso dizer que foram dois grandes sustos, visto que agora está estabilizada, contudo tenho um pressentimento tão forte em mim que algo não está bem. Não te sei dizer se é sexto sentido ou uma nuvem de pessimismo infiltrada.
Mas não vim aqui para falar disso. Vim continuar a minha história onde fiquei. Ás vezes procuro-te só para vir aqui falar sobre o que me perturba ou perturbou.

Vou contar-te uma coisa que ninguém entende. A minha relação com os carros e a condução. É dos maiores tabus da minha vida. Ontem estava a vir de Santa Maria da Feira, e como por vezes é comum a viajem não correu muito bem, nem como passageira.
Desde miúda que nunca gostei de carros, de estar dentro deles, de sentir a velocidade e de toda sensação que este transporte tão básico do século XXI transmite. Não sei onde tudo isto começou, sei que sempre disse na brincadeira que provavelmente teria morrido de acidente de carro em outra vida. 

Quando completei 18 anos, veio o desafio de passar de mero passageiro a condutor. 
Um dos processos mais estúpidos e frustrantes da minha vida, tirar a carta. Tive imensa dificuldade em assimilar todos os processos e claramente demorei um tempo infinito até a ter, incluindo as bonitas 3 vezes que reprovei no exame de condução. Demorei quase dois anos. É certo, que fora o meu medo, e talvez natural falta de jeito, as minhas instrutoras da primeira escola de condução (tive em duas escolas) eram duas bestas disfarçadas de mulheres. 
Estão a ver aquele passageiro que vai ao lado a dizer, com os olhos arregalados, sempre a dizer "Por favor, vai mais devagar"e quase que arranca o puxador da porta, e com medo vira o Hulk?  Pronto, sou eu. Mas até aqui pode parecer estranho, mas ainda estamos na parte "saudável" do medo. 
Cerca de duas semanas depois de ter carta, num domingo à noite, tive um grave acidente. Era passageira. 
Um choque frontal, numa curva que fez o carro caputar. O condutor, era o meu ex-namorado, que conduzia devagar, de forma tranquila e segura. Um senhor na casa dos 40 anos, que mais tarde viemos a saber, saiu de casa completamente embriagado após ter assistido a um clássico Porto-Benfica. No momento do choque, este já quase se encontrava em coma- alcoólico, do qual não se recorda de absolutamente nada da merda que fez.  


Parti o osso do externo (tórax), duas costelas e fiz queimaduras na anca e nos ombros. Segundo os bombeiros, tive imensa sorte. 
Fiquei cerca de três meses em casa em recuperação, que por sinal foi bastante lenta,  visto que tinha de estar sempre na cama, quieta, pois tanto a falar, rir ou pequenos movimentos, tinha sempre dores. 
Aí começou uma saga de pesadelos com luzes de carros a vir na minha direcção. Todas as noites sonhava com curvas diferentes, em que ia num carro em alta velocidade, e uma luz me encadeava. 
Aproximadamente dois meses depois do acidente, quando ainda estava em recuperação, fui baleada com a noticia que o "Preto" faleceu de acidente de carro. O "Preto" ou Bruno, foi uma pequena grande paixão de secundário que ficou por resolver com a desculpa de um rapaz de vida boémia e uma rapariga certinha. Deixei coisas por dizer, na altura, por orgulho,tal como ele a mim.  Mas a estrada levou-o. 
E tudo isto que te contei, de forma subtil e sem grandes adjectivos e metáforas é um dos meus grandes bloqueios mentais. 
Depois disso, voltei a conduzir, voltei a ser passageira também.  Mas se antes o medo existia, hoje domina-me. 
Hoje já desmaiei a conduzir com ataques de pânico, já parei o carro na valeta 4 e 5 vezes até chegar ao destino ou a casa porque sinto que me sufocam enquanto conduzo. Imagino mil e um acidentes possíveis em curtos espaços de tempo. Sinto-me a pessoa mais ínutil do mundo por não ser capaz de fazer com naturalidade aquilo que todos fazem. 
De cada viagem em que acaba por ser mais longa, à noite, numa auto estrada como passageira são imensos os compridos cor de rosa que acabo por ter de tomar. 
São inúmeras as vezes em que arranho a porta do passageiro, transpiro e de seguida o pânico instala-se em mim. São inúmeras as vezes em que engulo em seco, quando sei que não vou ser capaz de percorrer determinada distância, e desmarco alguma coisa ou deixo de fazer alguma coisa. 
Hoje, o medo passou a fobia e a fobia domina o meu pânico. 


Até já Camila
A tua Sem jeito



Ps: Prometo que vou fazer um esforço de nas próximas cartas falar-te de coisas mais optimistas.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O comprido Cor de Rosa

A vida é tão irónica sabias? Comecei a escrever para aqui a minha história quase, como um pequena conversa de café onde comecei do zero na carta anterior, e seria do meu agrado dar continuidade nesta sequência do passado, mas não vai acontecer, pelo menos hoje. 
Precisamente a historia que te contei estes dias,  do meu avô, ontem ironicamente quase se repetiu 17 anos depois. Vamos fazer aqui umas analepse.
Uma das melhores características que adquiri em todos os momentos maus da minha vida, foi a capacidade de reagir com tato e de forma racional a momentos de emergência, quase uma bombeira. 
As minhas experiências com hospitais e situações emergência médica, fez me nestas circunstâncias colocar a minha ansiedade, e a minha língua fria pronta para o desmaio,num saquinho pequenino e guardá-lo para outra altura, que não o momento em que outro/a precisasse de mim. 
Ontem, pela primeira vez, isso não aconteceu. E isso descontrolou-me. 

A casa da minha avó. Aquela que te disse na carta anterior em que vi tononi (ambulância em linguagem de adultos) em miúda a vir buscar o meu avô. Ontem, essa coisa de luzes reluzentes veio buscar a minha avó, pela segunda vez num curto espaço de um mês. Mas esta vez, eu estava lá. 
Quando entrei no quarto, onde já estava a minha mãe e a minha tia, vi a minha avó, sentada na cama completamente apática. Regra geral, começo a dizer barbaridades para ela se rir. Não consegui. Estupidamente, lembrei-me do mesmo cenário de há 17 anos, mas desta vez em adulta. 
Sentada na cama,  a minha avó começou dizer coisas sem sentido e sem qualquer ligação gramatical. Eu fugi. Disse que ia ver o meu pai e que ia "até lá baixo" (as casas são todas na mesma rua). Corri pelas escadas a chamar-me todos os nomes deste mundo e do outro. "Estou em pânico, estou em pânico. Agora não, agora não." Andei de um lado para o outro, quase a serpentear entre as tijoleiras do pátio dos meus pais. O Hugo pedia-me para ter calma, mas nem ele conseguia segurar o touro que estava dentro de mim Entre 30 respirações não acalmei. Senti que me estavam a estrangular, as pernas a ficar sem força e que tinha de tentar falar 50 palavras seguidas num minuto para exteriorizar-me. Não sei se foi um ataque de pânico, ou que raio de momento imbecil foi aquele.
Mais para a frente posso descrever-te um ataque de pânico, mas regra geral não falo ou muito pouco. 
Tomei um victan, e odeio quando a medicação vence por mim. Contudo iria precisar dessa calma dali a umas horas. 

Já era de noite. Tinha acabado de jantar com o Hugo, e habitualmente temos sempre a porta aberta. Ouvi um berro enorme. Um grito de socorro. 
Saí a correr. Era a minha tia a chamar pela minha mãe. No mesmo segundo em que corri pensei "A minha avó morreu. Não." Gatilhos da memória ou uma janela bloqueadora como o Dr. Ricardo disse ou o Agusto Cury nos seus livros. 
Chamei a minha mãe. Não entrei na casa da minha avó, tinha medo. Amarrei rapidamente o telefone à porta e liguei o 112. Habitualmente, aprendi a falar bastante bem este número. Estava serena, apesar de tudo.
Entrei no quarto da minha avó e esta e tinha acabado de espumar pela boca, contudo recuperou os sentidos. Falei com ela, disse coisas parvas para ela pelo menos sorrir. 
Esperei pela ambulância no mesmo portão em que esperei pelo meu avô á 17 anos.  
Lá foi ela, consciente e com o seu medo habitual a hospitais pois perdeu 3 filhos lá. Para nós os hospitais salvam vidas, para ela tiram.  

Entretanto, mais uma vez, foi a minha mãe na ambulância. O pilar da família, da rua, da freguesia. De que nem sabe de que é feita.   
Fiquei  acalmar a minha tia, que depressa se "auto-flagelou" por não ser ela a ser capaz de ir, tal como com o meu avô. Estava num traste. Passei momentaneamente a tomar a posição de controlo, fazendo-a ver que não temos, nem temos de ter todos o mesmo "depósito". Eu também não o tenho, ou acho que não o tenho. Ou seremos nós a dar pontapés em nós mesmos, por simplesmente sermos diferentes? E quem disse que diferente é mau? É o que é. 
A minha avó teve alta hoje, está estável. Contudo sei que alguma coisa nela já não está igual a algum tempo. 

Isto, para te dizer, que quem venceu isto não fui eu. Foi o comprido cor de rosa que fez todo o trabalho por mim. 


Até Camila,
A tua Sem jeito

terça-feira, 16 de julho de 2019

O primeiro dia mau

Vou contar-te a minha história. Vou fazer de ti a minha máquina do tempo, há quem diga que faz bem voltar ao passado e arrumar as coisas que ficaram desarmadas, na nossa mente, claro.
Sinceramente, não sei bem quando isto tudo começou ao certo. Sei que existe um período em que é quase como um "marcador" em que daí em diante me tornei inconstante, sabes?
A minha mãe, á anos que conta a história do dia em que eu nasci, em desde esse dia, já estava escrito algures em algum manuscrito da história, que ia ter um temperamento difícil.
Desde um parto que correu menos bem, a uma genética forte em feitios complicados, o meu pediatra disse bem cedo á minha mãe "poderá ser uma menina mais acelerada".
Bem, deitem "acelerada" no assunto, que desde então foram poucas vezes que conheci o pedal do travão.
Na minha infância, fui criada maioritariamente pelos meus avós maternos, sempre num meio muito adulto, visto que era neta e filha única. Todos diziam que falava "como uma adulta", consequentemente de todo o diálogo que ouvia ser de adultos também. Hoje, sou fascinada pela arte de comunicar, provavelmente oriunda já desses tempos.
Lembro-me, de forma muito viva do meu avô. Também não me perguntem porquê. Mas é quase como se até aos meus 6 anos, eu não tivesse pais. Não me lembro de absolutamente nada até essa idade, a não ser do meu avô. As supostas férias anuais no Algarve, aniversários com fotos carismáticas, a minha mãe, o meu pai, a minha madrinha, o meu primo (lado paterno), é como se fossem varridos da minha biografia.
Contudo, há uma imagem exageradamente presente que define a minha infância. Um homem de cinquenta e poucos anos, de estatura média, e olhos azuis que costumava jantar numa mesa redonda de plástico, branca, ao fundo da sala enquanto via o telejornal da Sic. Lembro-me de levar-me a passear pelo campo, logo a seguir a esta imagem. Era uma rotina. Lembro-me do fato-macaco habitual dele em tons azul marinho. Lembro-me da gargalhada dele. Lembro-me de ele me trazer brinquedos quando ia a Fatíma e de toda a gente o adorar. Lembro-me dos camiões e carros a entrar e a sair constantemente, sempre com trabalho.  Lembro-me com uma imagem tão viva, que há quem diga, que de tão pequena que eu era é impossível ter retido tão bem, tantos pormenores. 
E daqui, Camilia, conto-te o meu primeiro dia mau.
Lembro-me do dia em já não me levou mais a passear nos campos. Guardei num cartão de memória e ficou aqui perdido no meu disco. Vou mostrar-te.

Era Verão, Agosto, final da tarde, quando uma enorme algazarra se instalou na casa da minha avó. A mina mãe, a minha tia, e o meu pai, subiam e desciam as escadas que davam ao quarto dele. Penso que toda gente foi lá, menos eu. A minha mãe pediu-me firmemente para que ficasse atenta da varanda, caso visse alguma ambulância chegar. Sem perceber o que passava, apenas fiquei pregada ao chão a cumprir a sua ordem.
A ambulância chegou. Corri para dentro da cozinha, com medo. A minha avó estava lá. Abriu devagarinho a porta, quando as sirenes já tinham acalmado. Escondi-me entre as saias dela, e vi pela ultima vez o meu avô.

A minha mãe levantou-me cedo. Disse-me para vestir bonita, pois íamos ver o avô. Lembro-me daquela pura inocência de pegar numa blusa azul que a minha mãe odiava, mas para mim era a melhor do armário.
Desci as escadas e antes de tomar o pequeno almoço, a minha mãe pediu-me para chamar a minha tia, pois provavelmente, iríamos juntas.
Fui a correr, naquela pressa de criança que os adultos não entendem. Quando entrei, a casa estava escura. Não existia qualquer movimento. Um escuro e um parado estranho, percebes?
Virei a esquina do corredor, que dava à cozinha. A imagem da minha madrinha. Estava amarrada ao telefone, chorava e contorcia-se. Hoje, sei o que lhe disseram.
Saí a correr. 
Rapidamente, entrei no meio de uma confusão de adultos novamente. A minha mãe estava apressada de um lado para o outro, o meu pai recebia pessoas à porta que souberam a noticia. Hoje sei que essas pessoas eram amigos, clientes e familiares do meu avô. Entre toda a confusão, eu passeava entre os cantos da casa. E aí, vi uma das imagens que jamais esquecerei na minha vida. A minha avó.
Estava deitada na cama. Berrava  e chorava descontroladamente. Nunca vi uma imagem assim. Ao escrever isto, tenho tão nítida essa imagem como se fosse agora.
Não me lembro se sai devagar ou a correr, depois disso. Sei que de seguida, a minha mãe se aninhou a mim, nas escadas, e entre lágrimas me perguntou se queria ficar ali ou ir para casa do André. Alegremente e ainda sinto essa resposta inocente, respondi, que queria ir brincar com o primo.

Hoje, choro com a saudade que não senti nesse dia. Aperta-me o peito quando falam dele. Arrepia-me as fotos em que o vejo. E lembro-me da inocência com que vi tudo o que não deveria ver.

Até já Camila
A tua Sem jeito.



Olá Camila !

Bem, pelos vistos resolvi chamar a isto "Camila". Não sei bem porquê, sinceramente nem é um nome que ame loucamente. Simplesmente calhou. 
Á uma data de anos, foi assim que tudo começou. Onde tudo parecia sem sentido á minha volta, onde tudo estava confuso, apagado, cinzento e longe resolvi começar a escrever num sítio só meu. Sem julgamentos. Criei o "Caracóis Desfeitos", onde foi o meu refugio nos piores momentos. Também não sei dar uma explicação lógica desse nome, nem de onde surgiu essa ideia. Não há história bonita por trás disto, nem nenhum planeamento elaborado de marketing e desing. Há uma cabeça confusa e um coração triste. É essa a base da receita. Não recomendo. 
Hoje procuro a mesma ajuda com a "Camila" que encontrei a uns anos com  "Caracóis Desfeitos". Momentos diferentes, anos diferentes e já duas pessoas diferentes. 
A "Camila" surge numa versão de uma jovem mulher, e o "Caracóis" numa adolescente.

Ambas com o mesmo problema. A mente. A confusão. O stress. A bipolaridade humores. O ansiedade. Os ataques de pânico. O crescimento. A maturidade. A vida adulta. O amor. Os medos. As fobias. A tristeza. A incompreensão. A solidão no meio de tudo e nada. 
Camila, dás-me uma ajudinha nisto? 

Até já Camila
A tua Sem jeito.