Na última carta prometi que te ia apresentar a Adriana, que foi a minha primeira amizade que ainda hoje se mantém bastante presente na minha vida.
Contudo, vamos voltar ás analepses e viagens no tempo, porque tu funcionas quase como a minha psicóloga virtual à qual recorro para contar a minha história em momentos menos bons.
O meu pai.
O meu pai é um grande tendão de aquiles na minha vida, por bons e maus motivos, boas e más memórias. Alías, tudo aquilo que nos faz amar com força também nos faz doer com força.
Sou filha única e guardo uma série de memórias fantásticas com o meu pai, na minha infância. Ele nunca foi de beijinhos e abraços nem tão pouco de dizer coisas bonitas, assim como a minha mãe. Contudo, penso que até guardo uma certa carência desses mimos mais emocionais, que não sendo por mal, não os tive. Daí, talvez hoje eu ser bastante emocional e carente.
Recordo-me das manhãs de Domingo onde era quase tradição ver o Disney Kids, a saga do Timon e Pumba, na cama. Actualmente, continuo maluca pelo o Rei Leão porque simplesmente me faz lembrar momentos bons da minha infância com o meu pai.
A seguir a esses episódios de Domingo, era comum o meu pai, visitar amigos em cerca de quatro cafés diferentes nas terras das redondezas. Sempre foi e é um homem do futebol, jogava todos os anos em clubes diferentes e chegou também a ser treinador de vários clubes e idades também. Toda a gente conhecia o "Zé Luís" quando se entrava em qualquer café toda a gente tinha sempre alguma coisa para lhe dizer. Eu, pequenina de cabelo curtinho, quase "à rapaz", lá ia com ele onde geralmente me achavam imensa piada, por ser uma menina no meio de homens e meninos. Tentavam jogar matraquilhos comigo, coisa que sempre odiei, bilhar (com um taco maior que a minha altura),e por fim inscrever-me em equipas e torneios de futebol, no entanto sempre sem sucesso.
Esta rotina foi frequente até aos meus, pelo menos 12 anos.
Em miúda, aprendi a gostar de futebol, não tanto a jogar mas a ver e a perceber as regras.
Na minha pré-adolescência sabia os nomes e posições dos jogadores todos do FCPorto, via todos os jogos , tinha um fantástico placard de cortiça no quarto coberto com recortes de jornais com imagens do plantel do FCPorto, livros de autocolantes e mais uma série de informações conseguia juntar.
Lembro-me do festejo eufórico de quando o FCPorto venceu a Champions e toda a festa que eu e o meu pai criamos no jardim de minha casa. Ainda hoje tenho fotos com ele, com cachecol atado a cabeça.
A euforia da maria-rapaz terminou com 14 anos, quando finalmente decidi vestir uma saia e usar baton, que por acaso, foi precisamente a Adriana que me colocou maquilhagem pela a primeira vez.
Ainda hoje gosto de futebol, é interessante, contudo agora consigo perceber que toda aquela paixão mediática não passou de uma jogada inocente da minha parte, em tentar agradar o meu pai.
É claramente nítido, agora, que sempre fui uma menina vaidosa com um traço de Maria-Rapaz que ninguém percebia muito bem de onde vinha, hoje já percebi.
Era de forma involuntária, uma oportunidade de ter tempo de qualidade com o meu pai, onde existia 90 minutos em que lhe podia mostrar que sabia alguma coisa que ele também gostava. Lembro-me, de cada vez que existia uma falta ou um fora do jogo onde ele reclamava, ficava nervosa por não ter percebido o contexto do jogo, com medo que ele me perguntasse e eu falhasse a resposta ou não soubesse comentar correctamente. Tinha um medo enorme que ele considera-se que "não percebia nada" de algo que gostava tanto.
O meu pai, nunca me perguntou sobre as notas da escola, se tinha namorado, ou onde era a minha visita de estudo. Nunca me deu espaço para lhe dizer que era a aluna da turma que escrevia melhor, ou que na escola me diziam que o cabelo curto me fazia parecer um menino. Se eu aprendesse a gostar do que ele gostava, a saber do que ele sabia, a jogar ao que ele jogava eu conseguia ter conversas longas e as brincadeiras que desejava. Era esse o truque.
Não te falei do meu pai por coincidência, mas sim porque esta semana este tema me abalou. Resolvi, de forma precoce, passar já a apresentar-te talvez a maior ferida e amor da minha vida.
O meu pai.
Até já Camila,
A tua Sem jeito
Ps.: Esta carta, foram talvez as palavras que mais me custaram escrever. Sempre que escrevo para ti, volto atrás no tempo e encontro coisas novas em mim, altamente libertadoras e altamente cruéis.