segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Fora do jogo

Na última carta prometi que te ia apresentar a Adriana, que foi a minha primeira amizade que ainda hoje se mantém bastante presente na minha vida. 
Contudo, vamos voltar ás analepses e viagens no tempo, porque tu funcionas quase como a minha psicóloga virtual à qual recorro para contar a minha história em momentos menos bons.
O meu pai. 
O meu pai é um grande tendão de aquiles na minha vida, por bons e maus motivos, boas e más memórias. Alías, tudo aquilo que nos faz amar com força também nos faz doer com força. 
Sou filha única e guardo uma série de memórias fantásticas com o meu pai, na minha infância. Ele nunca foi de beijinhos e abraços nem tão pouco de dizer coisas bonitas, assim como a minha mãe. Contudo, penso que até guardo uma certa carência desses mimos mais emocionais, que não sendo por mal, não os tive. Daí, talvez hoje eu ser bastante emocional e carente. 
Recordo-me das manhãs de Domingo onde era quase tradição ver o Disney Kids, a saga do Timon e Pumba, na cama. Actualmente, continuo maluca pelo o Rei Leão porque simplesmente me faz lembrar momentos bons da minha infância com o meu pai. 
A seguir a esses episódios de Domingo, era comum o meu pai, visitar amigos em cerca de quatro cafés diferentes nas terras das redondezas. Sempre foi e é um homem do futebol,  jogava todos os anos em clubes diferentes e chegou também a ser treinador de vários clubes  e idades também. Toda a gente conhecia o "Zé Luís" quando se entrava em qualquer café toda a gente tinha sempre alguma coisa para lhe dizer. Eu, pequenina de cabelo curtinho, quase "à rapaz", lá ia com ele onde geralmente me achavam imensa piada, por ser uma menina no meio de homens e meninos. Tentavam jogar matraquilhos comigo, coisa que sempre odiei, bilhar (com um taco maior que a minha altura),e por fim inscrever-me em equipas e torneios de futebol, no entanto sempre sem sucesso.
Esta rotina foi frequente até aos meus, pelo menos 12 anos. 
Em miúda, aprendi a gostar de futebol, não tanto a jogar mas a ver e a perceber as regras. 
Na minha pré-adolescência sabia os nomes e posições dos jogadores todos do FCPorto, via todos os jogos , tinha um fantástico placard de cortiça no quarto coberto com recortes de jornais  com imagens do plantel do FCPorto, livros de autocolantes e mais uma série de informações conseguia juntar.
Lembro-me do festejo eufórico de quando o FCPorto venceu a Champions e toda a festa que eu e o meu pai criamos no jardim de minha casa. Ainda hoje tenho fotos com ele, com cachecol atado a cabeça.
A euforia da maria-rapaz terminou com 14 anos, quando finalmente decidi vestir uma saia e usar baton, que por acaso, foi precisamente a Adriana que me colocou maquilhagem pela a primeira vez.

Ainda hoje gosto de futebol, é interessante, contudo agora consigo perceber que toda aquela paixão mediática não passou de uma jogada inocente da minha parte, em tentar agradar o meu pai. 
É claramente nítido, agora, que sempre fui uma menina vaidosa com um traço de Maria-Rapaz que ninguém percebia muito bem de onde vinha, hoje já percebi. 
Era de forma involuntária, uma oportunidade de ter tempo de qualidade com o meu pai, onde existia 90 minutos em que lhe podia mostrar que sabia alguma coisa que ele também gostava. Lembro-me, de cada vez que existia uma falta ou um fora do jogo onde  ele reclamava, ficava nervosa por não ter percebido o contexto do jogo, com medo que ele me perguntasse e eu falhasse a resposta ou não soubesse comentar correctamente. Tinha um medo enorme que ele considera-se que "não percebia nada" de algo que gostava tanto. 
O meu pai, nunca me perguntou sobre as notas da escola, se tinha namorado, ou onde era a minha visita de estudo. Nunca me deu espaço para lhe dizer que era a aluna da turma que escrevia melhor, ou que na escola me diziam que o cabelo curto me fazia parecer um menino. Se eu aprendesse a gostar do que ele gostava, a saber do que ele sabia, a jogar ao que ele jogava eu conseguia ter conversas longas e as brincadeiras que desejava. Era esse o truque.


Não te falei do meu pai por coincidência, mas sim porque esta semana este tema me abalou. Resolvi, de forma precoce, passar já a apresentar-te talvez a maior ferida e amor da minha vida. 
O meu pai. 



Até já Camila, 
A tua Sem jeito


Ps.: Esta carta, foram talvez as palavras que mais me custaram escrever. Sempre que escrevo para ti, volto atrás no tempo e encontro coisas novas em mim, altamente libertadoras e altamente cruéis.  

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Sem Jeito e Sem Medo

Calma! Não me esqueci de ti por muito que pareça que te abandonei num canto, semelhante a uma mãe desnaturada. Não estive por aqui por bons motivos.
Á cerca de duas semanas tive uma semana bastante atribulada no trabalho, fartei-me de ver praias paradisíacas num ecrã, foram tantas que penso que até me bronzeei só de olhar e não apanhei um escaldão com tanta praia porque tenho o hábito de colocar protector solar no rosto o ano inteiro.
De seguida, tive uma semana de férias, da qual procurei desfrutar o melhor que pude e não guardei tempo para escrever. Não ficas chateada pois não?
Estive dois dias em Mondim de Basto, e cometi a loucura de ir ao topo do Monte Da Senhora da Graça. Bem, não foi bonito.
Tendo em conta a altitude da montanha e as curvas apertadas que o carro faz até chegar ao cimo, aliado á minha fobia com o mix de carros/curvas/ alturas, o máximo que te posso adiantar é que não sei como cheguei consciente lá cima.
A partir de uma determinada altitude (já considerável), comecei a amarrar a porta do carro com a força do Hulk, mais uma vez, mas desta vez fiquei realmente verde. Contorci-me e transpirei como um animal enjaulado quase vitima de um exorcismo, e claro, comecei a gritar de cada vez que só via nuvens e curvas. Eu disse que não foi bonito.
Conseguimos parar uma vez, num pequeníssimo espaço em terra batida que encontramos a cerca de 500 metros do cimo.  Tentei sair do carro, depois de parar de parar de hiperventilar como uma asmática em falência, contudo, não me segurava nas pernas. Da cintura para baixo, tinha gelatina em mim. Por pouco não me coloquei "de gatas". Para-mos cerca de 10 minutos, onde seguida o Hugo me pergunta "vamos ao que falta amor?".
Uii. Até os olhos em lágrimas tinha, nem sei muito bem porquê, mas toda eu estava num estado "miufa" nunca antes visto. Claramente que não disse "não quero ir", mesmo quando todo o meu corpo suplicava isso. Senti que podia enfrentar, mesmo que isso custasse os meus batimentos cardíacos.
Mais um berreiro para chegar lá cima. 
Admito que a vista é efectivamente bonita, no entanto estava borradinha o suficiente para não desfrutar da mesma, tal como ela é digna. Contudo, é bonita só podia ser mais baixinha um bocadinho para ninguém se chatear.   

Depois de Mondim de Basto, fui três dias a Lisboa visto que sempre adorei a capital e já devia uma ida ao Oceanário desde os meus 7 anos. Esses dias fiz quilómetros sem fim e o típico turismo urbano do qual me identifico bastante, onde também subi à Torre não sei de quê, perto do Elevador de Santa Justa com umas escadinhas de ferro em caracol que abanavam como loucas devido ao vento da altitude. Portanto, penso que essa semana dava um hastag de #susanasemedo. 
De seguida, não passei por aqui, porque me dediquei a mais um passo que o Dr. Ricardo me aconselhou - criar uma pagina só com as minha frases. Uma coisa sem regras, onde sou livre de escrever e acima de tudo adoro fazer. Seleccionei algumas frases que já tinha escrito e andei este tempo, a colocar um layout comum a todas, cores, logótipo, descrições... Quase uma mistura de um processo de escrita criativa com outro lado do "digital criativo". Perdi-me e estou super entusiasmada. Dei-lhe o nome de Perdidos e Achados, precisamente por definir aquele página como algo que não tem regra, mas sim um espaço genuíno, descontraído,  e que vai acontecendo. E como é óbvio, o leitor pode identificar-se com o que eu escrevo ou não, daí poder encontrar tudo ou nada.  Podia estar aqui a justificar-te ainda mais o slogan, a estudo das cores, da letra, mas penso que ias ficar ainda com mais ciumes do que já estás deste "segundo filho", por isso fique-mos por aqui. 

Na última carta falei-te do meu percurso no primeiro ciclo onde daí provavelmente ter nascido o meu gosto por escrever e das pessoas importantes que se cruzaram no meu caminho nesse período.
Hoje não vou alargar esse tema, mas na próxima vou apresentar-se uma pessoa muito importante dessa fase, a Adriana.
Até a próxima Camila, 
A tua Sem jeito


domingo, 18 de agosto de 2019

As redacções da escola

É verdade que já não venho aqui a alguns dias, no entanto já sabes que é justificado pela vanguarda de férias fantásticas que toda a gente se lembra de tirar este mês. Logo não sobra tempo para ti. 
Contudo, é domingo à noite e resolvi dar aqui um salto. 
O Hugo está a inalar futebol como se de uma bola dependesse o futuro da humanidade, e eu apesar de não detestar futebol, também não morro de amores e resolvi vir aqui "tomar um café contigo". 
Esta semana não ocorreu nada de muito anormal, à excepção de o meu cabelo ter passado por um processo violento na cabeleira que me levou a ter de o cortar forçadamente. Isso sim, levanta questões interiores em mim do futuro da humanidade. Fiquei um pouco em baixo com isso, pois não gosto de me ver assim, contudo ele cresce não é? Ninguém morre pois não? Então que seja, e basta de debater estas coisas fúteis. 
Ontem tive um ataque quase do "caixão à cova", mais uma vez no carro que infelizmente após muito esforço não consegui controlar sem auxilio do comprimido cor de rosa. Penso que foi despertado por uma poção entre carros e uma veia minha hipocondríaca. Impossível ser um resultado bonito. 
Nem vou perder grande tempo a explicar-te, sabes porquê? Estava a dar-lhe demasiada importância. Deixa-me, pelo menos hoje, e por agora não pensar muito neles pois, caso levante questões deste tema vou-me automaticamente culpar estupidamente. 


Da ultima vez que falamos, estava a contar-te sobre o meu "estágio" no jardim de infância não foi? Vamos então retomar essa conversa, pois penso que será bem mais interessante para este chá ou café das nove da noite de domingo. 
Depois desse período menos bonito da minha infância que terminou de uma forma bastante breve e não muito feliz, entrei para a escola primária, 
A escola primária que frequentei era a cerca de 600 metros de minha casa, o que me deixou bastante confortável e evitou que visse esse edifico e toda a essa fase como um "bicho papão".
Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia de escola. E é tão giro lembrar isso! Toda aquela confusão de meninos e meninas da minha idade, com uma coisa ás costas que depois descobri que definitivamente marcava o início de uma nova etapa - a mochila. 
De todas as cores possíveis e imaginárias, dos desenhos animados que faziam reluzir os nossos olhos no pequeno ecrã, e claro as tão adoradas mochilas de rodinhas. O luxo da canalha, literalmente. 
A minha mochila foi precisamente uma dessas! Recordo-me que uns meses mais tarde de o ano lectivo iniciar, a minha mãe e a minha avó levara-me ao Toysrus e ali supliquei desesperamente á minha avó uma grande mochila cor de rosa da Barbie, quase um luxo de última geração. Arriscava-me a dizer o último grito da moda infantil. Mal sabia eu, que essa iria ser a minha mesma mochila os quatro anos seguintes e que iria ter de a gramar esse tempo pelo preço exorbitante que ela custou. Nunca fui menina dos papás, apesar de ser filha única e mais tarde vais perceber que não, contudo tenho uma pequena costela de "menina da avó" da mesma forma que fui infelizmente pouco tempo "menina do avô". 
No primeiro dia de aulas do primeiro ciclo, conhecemos pessoas que não imaginamos que nos podem marcar para o resto da vida, ou melhor, que nos vão acompanhar nessa mesma caminhada. 
Saiu de um carro vermelho que estacionou precisamente em frente á escola. Uma roupa bastante vistosa, uma senhora alta de cabelos cor de ouro grossos e pelos ombros. De rosto simpático e olhos claros, chamava-se Professora Lucília. Acompanhou-me os quatro anos do primeiro ciclo e foi um dos grandes marcos da minha infância e curiosamente ainda hoje mantivemos o contacto. 
Além dessa elegante senhora, há uma miúda em que me lembro que usava um fato de treino lilás facilmente se aproximou de mim. Era completamente eléctrica, tinha cabelo escuro e usava com um carrapito no cimo da cabeça. Facilmente ficou a minha melhor amiga, a Adriana. Passaram quase 18 anos e existe todo um livro de histórias que se desenrolou com essa miúda de carrapitos. Nunca podíamos estar sentadas ao lado uma da outra. Era conversa a manhã, o intervalo e a tarde, acabávamos a comer cola de tubo a pensar ser gelado ou a borracha a imitar pipocas. Quando passamos ao segundo ano, sentiam-nos "grandes" pois já não éramos as mais novinhas da escola, deu asneira esta sensação. Acabamos a dar paulada velha aos meninos mais novos do primeiro ano, que facilmente quase recebemos paulada também do professor deles em castigo do que fizemos. Não foi muito bonito, mas hoje riu-me imenso disso. Conseguia ficar horas a contar-te histórias de rebolar a rir que tenho com ela.
Durante toda o meu percurso no primeiro ciclo, estive sempre entre os melhores alunos da turma. E curiosamente com uma tendência quase "anormal" de saber escrever mais do que um menino/a  da minha idade. A Professora Lucília, ainda hoje se recorda de corrigir os meus testes de português e deitar as mãos á cabeça quando chegava a parte da composição/redacção. Aquilo que todos os meninos odiavam fazer e nunca sabiam o que escrever, eu tinha ideias e escrevia por mim e pela turma inteira. Ainda hoje ela se ri quando me vê e diz "eles pequeninos, tinham de escrever três ou quatro linhas e ela já me vinha com textos de uma página com histórias que nem o diabo lembra", recordo-me de ela contar-me que estava em casa a corrigir testes e quando chegou o meu dizer-me que ria à brava, quando numa composição de um teste decidi inventar uma história em que levei uma centopeia ás compras de sapatos e isso ser um problema muito chato para ela. 
Foi na escola primária que descobri que a minha vocação, era sem dúvida LETRAS e de longe os aborrecidos números que tão exatos eram, principalmente para mim, que toda a liberdade do mundo tinha em mim.

Bem, já é tarde e esta semana prometo que voltamos a falar. Estou a morrer de sono e acho que já nem estou a escrever direito. 

Até já Camila
A tua Sem jeito

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Trúz trúz! Quem é ? É o PUM outra vez!

Bem é incrível em que de cada vez que quero dar seguimento há minha história. algo me puxa novamente para o presente para te contar alguma coisa particularmente menos boa que tenha ocorrido. E, deste modo é quase oficial dizer que vamos andar aqui em analepses e viagens no tempo entre o passado e o presente. 
Lembras-te, á cerca de duas ou três cartas atrás contar-te um pouco sobre o meu pânico a carros/estrada? Provavelmente sim.
Não é tarde nem é cedo, para a vida brincar mais um pouquinho com os meus receios. 
Precisamente anteontem, caminho da agência, a conduzir o meu Renault Clio da minha idade, pois já sabes que não tenho qualquer brio nos carros, houve outro PUM.
Estamos em pleno Agosto, suposto auge do Verão, em que depois de trabalhar numa agência de viagens percebi que o mês de Agosto têm de tudo menos de auge (apenas preços exorbitantes), quando o céu resolveu chorar. Chovia bastante, e claramente estamos a falar das tão apelidadas "primeiras chuvas". 
Travei, até com alguma antecedência numa estrada nacional, para deixar passar uma senhora que se meteu em modo "campeã" numa passadeira a passo corrido com medo da chuva, mas com pouco medo de ser varrida por um carro, por sinal. Não foi uma travagem brusca mas também não foi a mais natural do mundo. 
E em fracções de segundos ouvi outra vez aquele barulho. O PUM. O carro a desviar-se ligeiramente para um lado e as minhas mãos completamente cravadas ao volante. 
Não pensei de quem seria a culpa ou não, ou sequer no possível estrago envolvente. Nada. Só outra vez aquele barulho em que parece que me leva outra vez ao acidente. Que me lembra mais uma vez que os carros não são seguros e que é isto que pode sempre acontecer. Que não há o mínimo controlo sobre estas coisas que usamos diariamente. Alimenta ainda mais aquela voz que me diz sempre que entro num carro, "vai acontecer alguma coisa". Dá-lhe tanta força, que por mais que eu a tente calar, várias circunstâncias me provam sempre o contrário. 

Tenho carta à cerca de três ou quatro anos.  Além daquele grande acidente e de todo o medo que já existia proveniente de sei lá onde, já me aconteceu uma lista de situações que lentamente alimentaram ainda mais essa voz. 

Tinha carta a um ano. Ia a caminho do ginásio, quando a vontade de levantar ferro era bem diferente da de agora, em pleno mês de Dezembro. 
Claramente, ao acréscimo deste mês vêm a chuva torrencial, que nesse dia provocou uma série de acidentes na estrada. Precisamente na curva, onde o Bruno teve o acidente e infelizmente faleceu, tinha ocorrido um acidente a uns minutos, onde a policia teria chegado nesse mesmo instante ao local. Onde estava o erro? Uma curva de visibilidade reduzida, com inclinação, e ausência de sinalização do acidente que tinha ocorrido, consequentemente o carro à minha frente estancou-se para não atropelar um policia. 
Não é preciso dizer que a minha Seat Ibiza, ficou sem literalmente sem dentes depois de ir ao traseiro de um Mercedes, pois não? Mais uma vez, um PUM na minha cabeça que ficou a ecoar durante uns dias e mais um alimento aquela vozinha má que me lembra das inseguranças da estrada. 
Mas não fico por aqui, calma. Há outro. 

Cerca de dois anos depois, penso que seria altura de Primavera talvez Março ou Abril, estava a vir da cabeleireira em direcção a casa. 

Um entroncamento no qual o conheço bastante bem, pois era habitual fazer aquele caminho para casa todos estes anos. Então imagina, estás a sair à estrada e o teu objectivo não é virar nem para a direita nem para a esquerda, mas sim seguir em frente num outro caminho. Ou seja tens, literalmente de atravessar a estrada. A curva que faz do teu lado esquerdo, é extremamente fechada, para contornar isso colocaram um espelho para melhorar a visibilidade de carros que pudessem estar a circular nessa via. Mas têm que haver sempre um gajo/a burro não é ? Esse mesmo, que estacionou uma carrinha de transporte de mercadorias (ou seja muito pequena, portanto) na faixa contrária ao espelho. Ou seja eu apenas via a lateral da carrinha no espelho e zero possíveis carros. Contudo tinha de avançar não é?
Arranquei devagar e meia a medo, na esperança de não bater em nenhum carro que estivesse a circular à minha esquerda nessa curva. Pois, mas a verdade é que me esqueci que a estrada tem dois lados e existe, uma direita. E PUM outra vez. 

Claro que a culpa foi minha, visto que tinha stop e todas as normas do código que se sobrepõe ao facto de ter uma carrinha estacionada numa curva, e a senhora que bateu contra mim vir em claro excesso de velocidade. Visto que, eu estava a arrancar o carro, estamos a falar de uma pequena velociadade "a medo" de talvez menos 10 ou 5 km/h nunca faria os nossos carros rodopiar. E pelas leis do tempo e da física, provavelmente iria bater na lateral da frente do carro dela ou no máximo da porta dela, e nunca quase na lateral da mala. 

Isto para te explicar o acidente de forma racional, quase como um relatório de peritagem, para entrares dentro da situação. 
Fora isso, fiquei um horror de tempo dentro do carro com as mãos coladas ao volante. Começaram a surgir imensas pessoas à volta do meu carro, mas eu fiquei ali uns minutos, meia desligada do mundo com aquele som a ecoar na minha cabeça. Além disso, todos uns batimentos cardíacos descontrolados, sensação de náusea, língua fria e todo um relatório clínico que já deves ter percebido. 



Isto para te dizer, que não basta toda a sensação desconfortável que ou os carros, ou a estrada me transmitem, eu ainda tenho um pressagio que chega a ser quase oculto, em estar sempre no local errado à hora errada. Dado que em quatro anos, estamos a falar de um número total de 4 acidentes em que estive envolvida. Ou era passageira, ou fui culpada ou fui vitima. 
Agora, assim que estiveres a ler isto estás a preparar um tónico de água benta para eu xafordar-lo no focinho de cada vez que entrar num carro não é? Pois. Eu também já pensei no mesmo. 

Mas acho que depois te ter explicado, na carta anterior o outro acidente e agora estes episódios, que depois de ler isto, até tem um pingo de piada, já me compreendes melhor não já? 


Diz que sim!


Até já Camila, 
A tua Sem Jeito



PS1.: Até á  próxima carta vou ver se não me acontece nada entretanto, que precise de te contar, para ver se retoma-mos a minha história. 
Não sei porquê, tudo isto que te falei é um trauma enorme para mim, mas ao escrever isto para ti, sinto que fui invadida por uma onda enorme de sarcasmo e sentido de humor, que nunca pensei ter com este tema. 

PS2.: Adotei uma gata bébe, sabes que nome lhe dei? O teu. Camila. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Chorona

Sei que já não venho aqui à algum tempo, mas feliz ou infelizmente esta época alta de Agosto tem dado trabalho para dar e vender na agência. 
Passei por aqui para te dizer que me tenho sentido ligeiramente melhor, mais bem disposta, mais tranquila e penso que estarei no bom caminho para esta fase se perdurar e ressuscitar a Susana que há muito já andava perdida. 
Contudo, não vou deixar de te contar a minha história. 

Depois de falar da minha fobia eminente a carros em que te contei precisamente por estar constantemente presente no meu quotidiano vou voltar outra vez atrás no tempo onde fiquei a uma ou duas cartas que te escrevi. 
Após a morte do meu avô, lembro-me de uma fase bastante caricata que durou relativamente pouco tempo - a entrada na pré primária. Uma estadia bem curta por aquelas bandas.
Se não estou em erro, penso que a minha entrada para a pré, foi precisamente uns meses antes dele falecer, visto que ainda tenho presente algumas imagens de raspão da carrinha Toyota dele a vir-me buscar ao portão mais cedo que o costume. 
Odiei a pré-primária. Sentia-me uma sobredotada ao lado das outras crianças que apenas sabiam brincar e pouco diálogo me traziam. Lembro-me de tentar conversar com elas, mas na maioria das vezes sem sucesso, o que levou a uma solidão muito grande da minha parte. 
Geralmente, acabava a brincar sozinha, pois ninguém gostava de mim e cheguei até a ser apelidada de "chorona" pelas próprias educadoras. Sim, porque de cada vez que entrava lá, fazias muito bem sentirem a minha presença. Lembro-me daqueles pequenos compartimentos na salinha em que lembravam divisões de uma casa em modo miniatura, brincar sozinha, dotada do meu orgulho que longo prazo se fez sentir quando se aproximavam de mim. 
Foi aí que comecei a ter o meu primeiro contacto, mais próximo com as cores e a arte, adorava fazer desenhos, pintar todos os livros de formas e feitios e assim passei parte do meu tempo, até ver ansiosamente a minha mãe pela janela da sala. 
Consequentemente, as educadoras convocavam reuniões com a minha mãe, argumentando que era uma menina anti-social e de feitio vincado, ou neste caso exageradamente vincado e que muito possivelmente o meu percurso escolar futuro poderia vir a ser bastante complexo, sendo aconselhado um acompanhamento psicológico o mais breve possível. 
Não as culpo, contudo, aquelas senhoras desistiram de mim e nunca se aperceberam que a minha diferença das outras crianças não seria necessariamente má, e claramente todas essas suposições sobre o meu percurso escolar caíram em vão. 
Cresci entre adultos, sem irmãos e apenas com um primo. A minha capacidade de comunicação e diálogo instaurou-se de uma forma bastante precoce, pelo que quando as outras crianças se limitavam a brincar, eu já sentia necessidade de conversar sem precisar de grandes bonecas e legos. Daí eu não gostar das outras crianças e elas muito menos de mim. 
Levando isto á escala infantil, transforma-se em birras, choradeira, bofetada na cara de quem se aproximava e todo inferno que instaurava em mim quando ouvia a palavra "escolinha". 
Lembro-me de nos intervalos ir conversar com as senhoras da cantina, enquanto todas as outras crianças faziam uma série de coisas estranhas que não me identificava. 
Todo este percurso estendeu-se por espécie de um estágio na pré primária que não se alongou mais que 7 ou 10 meses. Foi o máximo que me aguentaram lá. 
E, felizmente, a minha mãe percebeu que eu apenas era diferente, com as minhas razões e do ambiente onde vinha,  e não uma singela menina "chorona" como me tratavam. 

Meses mais tarde, entrei para o 1º ciclo onde nada destes diagnósticos anti sociais ocorreram, muito pelo contrário precisava de fita cola para me calarem. 
Mas isso depois conto-te. 
Só te contei isto, para perceberes que este mundo cinzento e de pouca imaginação, já me chama de maluca ainda fazia eu chichi na cama e tiravas ranhetas do nariz. 

Até já Camila, 
A tua Sem jeito 


quinta-feira, 25 de julho de 2019

As quatro rodas

Da última vez que passei por aqui o meu início de semana tinha sido um pouco bruto, visto que o tinha acontecido à minha avó.
No dia seguinte, a história repetiu-se e lá veio o tinoni outra vez. Posso dizer que foram dois grandes sustos, visto que agora está estabilizada, contudo tenho um pressentimento tão forte em mim que algo não está bem. Não te sei dizer se é sexto sentido ou uma nuvem de pessimismo infiltrada.
Mas não vim aqui para falar disso. Vim continuar a minha história onde fiquei. Ás vezes procuro-te só para vir aqui falar sobre o que me perturba ou perturbou.

Vou contar-te uma coisa que ninguém entende. A minha relação com os carros e a condução. É dos maiores tabus da minha vida. Ontem estava a vir de Santa Maria da Feira, e como por vezes é comum a viajem não correu muito bem, nem como passageira.
Desde miúda que nunca gostei de carros, de estar dentro deles, de sentir a velocidade e de toda sensação que este transporte tão básico do século XXI transmite. Não sei onde tudo isto começou, sei que sempre disse na brincadeira que provavelmente teria morrido de acidente de carro em outra vida. 

Quando completei 18 anos, veio o desafio de passar de mero passageiro a condutor. 
Um dos processos mais estúpidos e frustrantes da minha vida, tirar a carta. Tive imensa dificuldade em assimilar todos os processos e claramente demorei um tempo infinito até a ter, incluindo as bonitas 3 vezes que reprovei no exame de condução. Demorei quase dois anos. É certo, que fora o meu medo, e talvez natural falta de jeito, as minhas instrutoras da primeira escola de condução (tive em duas escolas) eram duas bestas disfarçadas de mulheres. 
Estão a ver aquele passageiro que vai ao lado a dizer, com os olhos arregalados, sempre a dizer "Por favor, vai mais devagar"e quase que arranca o puxador da porta, e com medo vira o Hulk?  Pronto, sou eu. Mas até aqui pode parecer estranho, mas ainda estamos na parte "saudável" do medo. 
Cerca de duas semanas depois de ter carta, num domingo à noite, tive um grave acidente. Era passageira. 
Um choque frontal, numa curva que fez o carro caputar. O condutor, era o meu ex-namorado, que conduzia devagar, de forma tranquila e segura. Um senhor na casa dos 40 anos, que mais tarde viemos a saber, saiu de casa completamente embriagado após ter assistido a um clássico Porto-Benfica. No momento do choque, este já quase se encontrava em coma- alcoólico, do qual não se recorda de absolutamente nada da merda que fez.  


Parti o osso do externo (tórax), duas costelas e fiz queimaduras na anca e nos ombros. Segundo os bombeiros, tive imensa sorte. 
Fiquei cerca de três meses em casa em recuperação, que por sinal foi bastante lenta,  visto que tinha de estar sempre na cama, quieta, pois tanto a falar, rir ou pequenos movimentos, tinha sempre dores. 
Aí começou uma saga de pesadelos com luzes de carros a vir na minha direcção. Todas as noites sonhava com curvas diferentes, em que ia num carro em alta velocidade, e uma luz me encadeava. 
Aproximadamente dois meses depois do acidente, quando ainda estava em recuperação, fui baleada com a noticia que o "Preto" faleceu de acidente de carro. O "Preto" ou Bruno, foi uma pequena grande paixão de secundário que ficou por resolver com a desculpa de um rapaz de vida boémia e uma rapariga certinha. Deixei coisas por dizer, na altura, por orgulho,tal como ele a mim.  Mas a estrada levou-o. 
E tudo isto que te contei, de forma subtil e sem grandes adjectivos e metáforas é um dos meus grandes bloqueios mentais. 
Depois disso, voltei a conduzir, voltei a ser passageira também.  Mas se antes o medo existia, hoje domina-me. 
Hoje já desmaiei a conduzir com ataques de pânico, já parei o carro na valeta 4 e 5 vezes até chegar ao destino ou a casa porque sinto que me sufocam enquanto conduzo. Imagino mil e um acidentes possíveis em curtos espaços de tempo. Sinto-me a pessoa mais ínutil do mundo por não ser capaz de fazer com naturalidade aquilo que todos fazem. 
De cada viagem em que acaba por ser mais longa, à noite, numa auto estrada como passageira são imensos os compridos cor de rosa que acabo por ter de tomar. 
São inúmeras as vezes em que arranho a porta do passageiro, transpiro e de seguida o pânico instala-se em mim. São inúmeras as vezes em que engulo em seco, quando sei que não vou ser capaz de percorrer determinada distância, e desmarco alguma coisa ou deixo de fazer alguma coisa. 
Hoje, o medo passou a fobia e a fobia domina o meu pânico. 


Até já Camila
A tua Sem jeito



Ps: Prometo que vou fazer um esforço de nas próximas cartas falar-te de coisas mais optimistas.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O comprido Cor de Rosa

A vida é tão irónica sabias? Comecei a escrever para aqui a minha história quase, como um pequena conversa de café onde comecei do zero na carta anterior, e seria do meu agrado dar continuidade nesta sequência do passado, mas não vai acontecer, pelo menos hoje. 
Precisamente a historia que te contei estes dias,  do meu avô, ontem ironicamente quase se repetiu 17 anos depois. Vamos fazer aqui umas analepse.
Uma das melhores características que adquiri em todos os momentos maus da minha vida, foi a capacidade de reagir com tato e de forma racional a momentos de emergência, quase uma bombeira. 
As minhas experiências com hospitais e situações emergência médica, fez me nestas circunstâncias colocar a minha ansiedade, e a minha língua fria pronta para o desmaio,num saquinho pequenino e guardá-lo para outra altura, que não o momento em que outro/a precisasse de mim. 
Ontem, pela primeira vez, isso não aconteceu. E isso descontrolou-me. 

A casa da minha avó. Aquela que te disse na carta anterior em que vi tononi (ambulância em linguagem de adultos) em miúda a vir buscar o meu avô. Ontem, essa coisa de luzes reluzentes veio buscar a minha avó, pela segunda vez num curto espaço de um mês. Mas esta vez, eu estava lá. 
Quando entrei no quarto, onde já estava a minha mãe e a minha tia, vi a minha avó, sentada na cama completamente apática. Regra geral, começo a dizer barbaridades para ela se rir. Não consegui. Estupidamente, lembrei-me do mesmo cenário de há 17 anos, mas desta vez em adulta. 
Sentada na cama,  a minha avó começou dizer coisas sem sentido e sem qualquer ligação gramatical. Eu fugi. Disse que ia ver o meu pai e que ia "até lá baixo" (as casas são todas na mesma rua). Corri pelas escadas a chamar-me todos os nomes deste mundo e do outro. "Estou em pânico, estou em pânico. Agora não, agora não." Andei de um lado para o outro, quase a serpentear entre as tijoleiras do pátio dos meus pais. O Hugo pedia-me para ter calma, mas nem ele conseguia segurar o touro que estava dentro de mim Entre 30 respirações não acalmei. Senti que me estavam a estrangular, as pernas a ficar sem força e que tinha de tentar falar 50 palavras seguidas num minuto para exteriorizar-me. Não sei se foi um ataque de pânico, ou que raio de momento imbecil foi aquele.
Mais para a frente posso descrever-te um ataque de pânico, mas regra geral não falo ou muito pouco. 
Tomei um victan, e odeio quando a medicação vence por mim. Contudo iria precisar dessa calma dali a umas horas. 

Já era de noite. Tinha acabado de jantar com o Hugo, e habitualmente temos sempre a porta aberta. Ouvi um berro enorme. Um grito de socorro. 
Saí a correr. Era a minha tia a chamar pela minha mãe. No mesmo segundo em que corri pensei "A minha avó morreu. Não." Gatilhos da memória ou uma janela bloqueadora como o Dr. Ricardo disse ou o Agusto Cury nos seus livros. 
Chamei a minha mãe. Não entrei na casa da minha avó, tinha medo. Amarrei rapidamente o telefone à porta e liguei o 112. Habitualmente, aprendi a falar bastante bem este número. Estava serena, apesar de tudo.
Entrei no quarto da minha avó e esta e tinha acabado de espumar pela boca, contudo recuperou os sentidos. Falei com ela, disse coisas parvas para ela pelo menos sorrir. 
Esperei pela ambulância no mesmo portão em que esperei pelo meu avô á 17 anos.  
Lá foi ela, consciente e com o seu medo habitual a hospitais pois perdeu 3 filhos lá. Para nós os hospitais salvam vidas, para ela tiram.  

Entretanto, mais uma vez, foi a minha mãe na ambulância. O pilar da família, da rua, da freguesia. De que nem sabe de que é feita.   
Fiquei  acalmar a minha tia, que depressa se "auto-flagelou" por não ser ela a ser capaz de ir, tal como com o meu avô. Estava num traste. Passei momentaneamente a tomar a posição de controlo, fazendo-a ver que não temos, nem temos de ter todos o mesmo "depósito". Eu também não o tenho, ou acho que não o tenho. Ou seremos nós a dar pontapés em nós mesmos, por simplesmente sermos diferentes? E quem disse que diferente é mau? É o que é. 
A minha avó teve alta hoje, está estável. Contudo sei que alguma coisa nela já não está igual a algum tempo. 

Isto, para te dizer, que quem venceu isto não fui eu. Foi o comprido cor de rosa que fez todo o trabalho por mim. 


Até Camila,
A tua Sem jeito