segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Fora do jogo

Na última carta prometi que te ia apresentar a Adriana, que foi a minha primeira amizade que ainda hoje se mantém bastante presente na minha vida. 
Contudo, vamos voltar ás analepses e viagens no tempo, porque tu funcionas quase como a minha psicóloga virtual à qual recorro para contar a minha história em momentos menos bons.
O meu pai. 
O meu pai é um grande tendão de aquiles na minha vida, por bons e maus motivos, boas e más memórias. Alías, tudo aquilo que nos faz amar com força também nos faz doer com força. 
Sou filha única e guardo uma série de memórias fantásticas com o meu pai, na minha infância. Ele nunca foi de beijinhos e abraços nem tão pouco de dizer coisas bonitas, assim como a minha mãe. Contudo, penso que até guardo uma certa carência desses mimos mais emocionais, que não sendo por mal, não os tive. Daí, talvez hoje eu ser bastante emocional e carente. 
Recordo-me das manhãs de Domingo onde era quase tradição ver o Disney Kids, a saga do Timon e Pumba, na cama. Actualmente, continuo maluca pelo o Rei Leão porque simplesmente me faz lembrar momentos bons da minha infância com o meu pai. 
A seguir a esses episódios de Domingo, era comum o meu pai, visitar amigos em cerca de quatro cafés diferentes nas terras das redondezas. Sempre foi e é um homem do futebol,  jogava todos os anos em clubes diferentes e chegou também a ser treinador de vários clubes  e idades também. Toda a gente conhecia o "Zé Luís" quando se entrava em qualquer café toda a gente tinha sempre alguma coisa para lhe dizer. Eu, pequenina de cabelo curtinho, quase "à rapaz", lá ia com ele onde geralmente me achavam imensa piada, por ser uma menina no meio de homens e meninos. Tentavam jogar matraquilhos comigo, coisa que sempre odiei, bilhar (com um taco maior que a minha altura),e por fim inscrever-me em equipas e torneios de futebol, no entanto sempre sem sucesso.
Esta rotina foi frequente até aos meus, pelo menos 12 anos. 
Em miúda, aprendi a gostar de futebol, não tanto a jogar mas a ver e a perceber as regras. 
Na minha pré-adolescência sabia os nomes e posições dos jogadores todos do FCPorto, via todos os jogos , tinha um fantástico placard de cortiça no quarto coberto com recortes de jornais  com imagens do plantel do FCPorto, livros de autocolantes e mais uma série de informações conseguia juntar.
Lembro-me do festejo eufórico de quando o FCPorto venceu a Champions e toda a festa que eu e o meu pai criamos no jardim de minha casa. Ainda hoje tenho fotos com ele, com cachecol atado a cabeça.
A euforia da maria-rapaz terminou com 14 anos, quando finalmente decidi vestir uma saia e usar baton, que por acaso, foi precisamente a Adriana que me colocou maquilhagem pela a primeira vez.

Ainda hoje gosto de futebol, é interessante, contudo agora consigo perceber que toda aquela paixão mediática não passou de uma jogada inocente da minha parte, em tentar agradar o meu pai. 
É claramente nítido, agora, que sempre fui uma menina vaidosa com um traço de Maria-Rapaz que ninguém percebia muito bem de onde vinha, hoje já percebi. 
Era de forma involuntária, uma oportunidade de ter tempo de qualidade com o meu pai, onde existia 90 minutos em que lhe podia mostrar que sabia alguma coisa que ele também gostava. Lembro-me, de cada vez que existia uma falta ou um fora do jogo onde  ele reclamava, ficava nervosa por não ter percebido o contexto do jogo, com medo que ele me perguntasse e eu falhasse a resposta ou não soubesse comentar correctamente. Tinha um medo enorme que ele considera-se que "não percebia nada" de algo que gostava tanto. 
O meu pai, nunca me perguntou sobre as notas da escola, se tinha namorado, ou onde era a minha visita de estudo. Nunca me deu espaço para lhe dizer que era a aluna da turma que escrevia melhor, ou que na escola me diziam que o cabelo curto me fazia parecer um menino. Se eu aprendesse a gostar do que ele gostava, a saber do que ele sabia, a jogar ao que ele jogava eu conseguia ter conversas longas e as brincadeiras que desejava. Era esse o truque.


Não te falei do meu pai por coincidência, mas sim porque esta semana este tema me abalou. Resolvi, de forma precoce, passar já a apresentar-te talvez a maior ferida e amor da minha vida. 
O meu pai. 



Até já Camila, 
A tua Sem jeito


Ps.: Esta carta, foram talvez as palavras que mais me custaram escrever. Sempre que escrevo para ti, volto atrás no tempo e encontro coisas novas em mim, altamente libertadoras e altamente cruéis.  

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Sem Jeito e Sem Medo

Calma! Não me esqueci de ti por muito que pareça que te abandonei num canto, semelhante a uma mãe desnaturada. Não estive por aqui por bons motivos.
Á cerca de duas semanas tive uma semana bastante atribulada no trabalho, fartei-me de ver praias paradisíacas num ecrã, foram tantas que penso que até me bronzeei só de olhar e não apanhei um escaldão com tanta praia porque tenho o hábito de colocar protector solar no rosto o ano inteiro.
De seguida, tive uma semana de férias, da qual procurei desfrutar o melhor que pude e não guardei tempo para escrever. Não ficas chateada pois não?
Estive dois dias em Mondim de Basto, e cometi a loucura de ir ao topo do Monte Da Senhora da Graça. Bem, não foi bonito.
Tendo em conta a altitude da montanha e as curvas apertadas que o carro faz até chegar ao cimo, aliado á minha fobia com o mix de carros/curvas/ alturas, o máximo que te posso adiantar é que não sei como cheguei consciente lá cima.
A partir de uma determinada altitude (já considerável), comecei a amarrar a porta do carro com a força do Hulk, mais uma vez, mas desta vez fiquei realmente verde. Contorci-me e transpirei como um animal enjaulado quase vitima de um exorcismo, e claro, comecei a gritar de cada vez que só via nuvens e curvas. Eu disse que não foi bonito.
Conseguimos parar uma vez, num pequeníssimo espaço em terra batida que encontramos a cerca de 500 metros do cimo.  Tentei sair do carro, depois de parar de parar de hiperventilar como uma asmática em falência, contudo, não me segurava nas pernas. Da cintura para baixo, tinha gelatina em mim. Por pouco não me coloquei "de gatas". Para-mos cerca de 10 minutos, onde seguida o Hugo me pergunta "vamos ao que falta amor?".
Uii. Até os olhos em lágrimas tinha, nem sei muito bem porquê, mas toda eu estava num estado "miufa" nunca antes visto. Claramente que não disse "não quero ir", mesmo quando todo o meu corpo suplicava isso. Senti que podia enfrentar, mesmo que isso custasse os meus batimentos cardíacos.
Mais um berreiro para chegar lá cima. 
Admito que a vista é efectivamente bonita, no entanto estava borradinha o suficiente para não desfrutar da mesma, tal como ela é digna. Contudo, é bonita só podia ser mais baixinha um bocadinho para ninguém se chatear.   

Depois de Mondim de Basto, fui três dias a Lisboa visto que sempre adorei a capital e já devia uma ida ao Oceanário desde os meus 7 anos. Esses dias fiz quilómetros sem fim e o típico turismo urbano do qual me identifico bastante, onde também subi à Torre não sei de quê, perto do Elevador de Santa Justa com umas escadinhas de ferro em caracol que abanavam como loucas devido ao vento da altitude. Portanto, penso que essa semana dava um hastag de #susanasemedo. 
De seguida, não passei por aqui, porque me dediquei a mais um passo que o Dr. Ricardo me aconselhou - criar uma pagina só com as minha frases. Uma coisa sem regras, onde sou livre de escrever e acima de tudo adoro fazer. Seleccionei algumas frases que já tinha escrito e andei este tempo, a colocar um layout comum a todas, cores, logótipo, descrições... Quase uma mistura de um processo de escrita criativa com outro lado do "digital criativo". Perdi-me e estou super entusiasmada. Dei-lhe o nome de Perdidos e Achados, precisamente por definir aquele página como algo que não tem regra, mas sim um espaço genuíno, descontraído,  e que vai acontecendo. E como é óbvio, o leitor pode identificar-se com o que eu escrevo ou não, daí poder encontrar tudo ou nada.  Podia estar aqui a justificar-te ainda mais o slogan, a estudo das cores, da letra, mas penso que ias ficar ainda com mais ciumes do que já estás deste "segundo filho", por isso fique-mos por aqui. 

Na última carta falei-te do meu percurso no primeiro ciclo onde daí provavelmente ter nascido o meu gosto por escrever e das pessoas importantes que se cruzaram no meu caminho nesse período.
Hoje não vou alargar esse tema, mas na próxima vou apresentar-se uma pessoa muito importante dessa fase, a Adriana.
Até a próxima Camila, 
A tua Sem jeito