É verdade que já não venho aqui a alguns dias, no entanto já sabes que é justificado pela vanguarda de férias fantásticas que toda a gente se lembra de tirar este mês. Logo não sobra tempo para ti.
Contudo, é domingo à noite e resolvi dar aqui um salto.
O Hugo está a inalar futebol como se de uma bola dependesse o futuro da humanidade, e eu apesar de não detestar futebol, também não morro de amores e resolvi vir aqui "tomar um café contigo".
Esta semana não ocorreu nada de muito anormal, à excepção de o meu cabelo ter passado por um processo violento na cabeleira que me levou a ter de o cortar forçadamente. Isso sim, levanta questões interiores em mim do futuro da humanidade. Fiquei um pouco em baixo com isso, pois não gosto de me ver assim, contudo ele cresce não é? Ninguém morre pois não? Então que seja, e basta de debater estas coisas fúteis.
Ontem tive um ataque quase do "caixão à cova", mais uma vez no carro que infelizmente após muito esforço não consegui controlar sem auxilio do comprimido cor de rosa. Penso que foi despertado por uma poção entre carros e uma veia minha hipocondríaca. Impossível ser um resultado bonito.
Nem vou perder grande tempo a explicar-te, sabes porquê? Estava a dar-lhe demasiada importância. Deixa-me, pelo menos hoje, e por agora não pensar muito neles pois, caso levante questões deste tema vou-me automaticamente culpar estupidamente.
Da ultima vez que falamos, estava a contar-te sobre o meu "estágio" no jardim de infância não foi? Vamos então retomar essa conversa, pois penso que será bem mais interessante para este chá ou café das nove da noite de domingo.
Depois desse período menos bonito da minha infância que terminou de uma forma bastante breve e não muito feliz, entrei para a escola primária,
A escola primária que frequentei era a cerca de 600 metros de minha casa, o que me deixou bastante confortável e evitou que visse esse edifico e toda a essa fase como um "bicho papão".
Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia de escola. E é tão giro lembrar isso! Toda aquela confusão de meninos e meninas da minha idade, com uma coisa ás costas que depois descobri que definitivamente marcava o início de uma nova etapa - a mochila.
De todas as cores possíveis e imaginárias, dos desenhos animados que faziam reluzir os nossos olhos no pequeno ecrã, e claro as tão adoradas mochilas de rodinhas. O luxo da canalha, literalmente.
A minha mochila foi precisamente uma dessas! Recordo-me que uns meses mais tarde de o ano lectivo iniciar, a minha mãe e a minha avó levara-me ao Toysrus e ali supliquei desesperamente á minha avó uma grande mochila cor de rosa da Barbie, quase um luxo de última geração. Arriscava-me a dizer o último grito da moda infantil. Mal sabia eu, que essa iria ser a minha mesma mochila os quatro anos seguintes e que iria ter de a gramar esse tempo pelo preço exorbitante que ela custou. Nunca fui menina dos papás, apesar de ser filha única e mais tarde vais perceber que não, contudo tenho uma pequena costela de "menina da avó" da mesma forma que fui infelizmente pouco tempo "menina do avô".
No primeiro dia de aulas do primeiro ciclo, conhecemos pessoas que não imaginamos que nos podem marcar para o resto da vida, ou melhor, que nos vão acompanhar nessa mesma caminhada.
Saiu de um carro vermelho que estacionou precisamente em frente á escola. Uma roupa bastante vistosa, uma senhora alta de cabelos cor de ouro grossos e pelos ombros. De rosto simpático e olhos claros, chamava-se Professora Lucília. Acompanhou-me os quatro anos do primeiro ciclo e foi um dos grandes marcos da minha infância e curiosamente ainda hoje mantivemos o contacto.
Além dessa elegante senhora, há uma miúda em que me lembro que usava um fato de treino lilás facilmente se aproximou de mim. Era completamente eléctrica, tinha cabelo escuro e usava com um carrapito no cimo da cabeça. Facilmente ficou a minha melhor amiga, a Adriana. Passaram quase 18 anos e existe todo um livro de histórias que se desenrolou com essa miúda de carrapitos. Nunca podíamos estar sentadas ao lado uma da outra. Era conversa a manhã, o intervalo e a tarde, acabávamos a comer cola de tubo a pensar ser gelado ou a borracha a imitar pipocas. Quando passamos ao segundo ano, sentiam-nos "grandes" pois já não éramos as mais novinhas da escola, deu asneira esta sensação. Acabamos a dar paulada velha aos meninos mais novos do primeiro ano, que facilmente quase recebemos paulada também do professor deles em castigo do que fizemos. Não foi muito bonito, mas hoje riu-me imenso disso. Conseguia ficar horas a contar-te histórias de rebolar a rir que tenho com ela.
Durante toda o meu percurso no primeiro ciclo, estive sempre entre os melhores alunos da turma. E curiosamente com uma tendência quase "anormal" de saber escrever mais do que um menino/a da minha idade. A Professora Lucília, ainda hoje se recorda de corrigir os meus testes de português e deitar as mãos á cabeça quando chegava a parte da composição/redacção. Aquilo que todos os meninos odiavam fazer e nunca sabiam o que escrever, eu tinha ideias e escrevia por mim e pela turma inteira. Ainda hoje ela se ri quando me vê e diz "eles pequeninos, tinham de escrever três ou quatro linhas e ela já me vinha com textos de uma página com histórias que nem o diabo lembra", recordo-me de ela contar-me que estava em casa a corrigir testes e quando chegou o meu dizer-me que ria à brava, quando numa composição de um teste decidi inventar uma história em que levei uma centopeia ás compras de sapatos e isso ser um problema muito chato para ela.
Foi na escola primária que descobri que a minha vocação, era sem dúvida LETRAS e de longe os aborrecidos números que tão exatos eram, principalmente para mim, que toda a liberdade do mundo tinha em mim.
Bem, já é tarde e esta semana prometo que voltamos a falar. Estou a morrer de sono e acho que já nem estou a escrever direito.
Até já Camila
A tua Sem jeito