domingo, 18 de agosto de 2019

As redacções da escola

É verdade que já não venho aqui a alguns dias, no entanto já sabes que é justificado pela vanguarda de férias fantásticas que toda a gente se lembra de tirar este mês. Logo não sobra tempo para ti. 
Contudo, é domingo à noite e resolvi dar aqui um salto. 
O Hugo está a inalar futebol como se de uma bola dependesse o futuro da humanidade, e eu apesar de não detestar futebol, também não morro de amores e resolvi vir aqui "tomar um café contigo". 
Esta semana não ocorreu nada de muito anormal, à excepção de o meu cabelo ter passado por um processo violento na cabeleira que me levou a ter de o cortar forçadamente. Isso sim, levanta questões interiores em mim do futuro da humanidade. Fiquei um pouco em baixo com isso, pois não gosto de me ver assim, contudo ele cresce não é? Ninguém morre pois não? Então que seja, e basta de debater estas coisas fúteis. 
Ontem tive um ataque quase do "caixão à cova", mais uma vez no carro que infelizmente após muito esforço não consegui controlar sem auxilio do comprimido cor de rosa. Penso que foi despertado por uma poção entre carros e uma veia minha hipocondríaca. Impossível ser um resultado bonito. 
Nem vou perder grande tempo a explicar-te, sabes porquê? Estava a dar-lhe demasiada importância. Deixa-me, pelo menos hoje, e por agora não pensar muito neles pois, caso levante questões deste tema vou-me automaticamente culpar estupidamente. 


Da ultima vez que falamos, estava a contar-te sobre o meu "estágio" no jardim de infância não foi? Vamos então retomar essa conversa, pois penso que será bem mais interessante para este chá ou café das nove da noite de domingo. 
Depois desse período menos bonito da minha infância que terminou de uma forma bastante breve e não muito feliz, entrei para a escola primária, 
A escola primária que frequentei era a cerca de 600 metros de minha casa, o que me deixou bastante confortável e evitou que visse esse edifico e toda a essa fase como um "bicho papão".
Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia de escola. E é tão giro lembrar isso! Toda aquela confusão de meninos e meninas da minha idade, com uma coisa ás costas que depois descobri que definitivamente marcava o início de uma nova etapa - a mochila. 
De todas as cores possíveis e imaginárias, dos desenhos animados que faziam reluzir os nossos olhos no pequeno ecrã, e claro as tão adoradas mochilas de rodinhas. O luxo da canalha, literalmente. 
A minha mochila foi precisamente uma dessas! Recordo-me que uns meses mais tarde de o ano lectivo iniciar, a minha mãe e a minha avó levara-me ao Toysrus e ali supliquei desesperamente á minha avó uma grande mochila cor de rosa da Barbie, quase um luxo de última geração. Arriscava-me a dizer o último grito da moda infantil. Mal sabia eu, que essa iria ser a minha mesma mochila os quatro anos seguintes e que iria ter de a gramar esse tempo pelo preço exorbitante que ela custou. Nunca fui menina dos papás, apesar de ser filha única e mais tarde vais perceber que não, contudo tenho uma pequena costela de "menina da avó" da mesma forma que fui infelizmente pouco tempo "menina do avô". 
No primeiro dia de aulas do primeiro ciclo, conhecemos pessoas que não imaginamos que nos podem marcar para o resto da vida, ou melhor, que nos vão acompanhar nessa mesma caminhada. 
Saiu de um carro vermelho que estacionou precisamente em frente á escola. Uma roupa bastante vistosa, uma senhora alta de cabelos cor de ouro grossos e pelos ombros. De rosto simpático e olhos claros, chamava-se Professora Lucília. Acompanhou-me os quatro anos do primeiro ciclo e foi um dos grandes marcos da minha infância e curiosamente ainda hoje mantivemos o contacto. 
Além dessa elegante senhora, há uma miúda em que me lembro que usava um fato de treino lilás facilmente se aproximou de mim. Era completamente eléctrica, tinha cabelo escuro e usava com um carrapito no cimo da cabeça. Facilmente ficou a minha melhor amiga, a Adriana. Passaram quase 18 anos e existe todo um livro de histórias que se desenrolou com essa miúda de carrapitos. Nunca podíamos estar sentadas ao lado uma da outra. Era conversa a manhã, o intervalo e a tarde, acabávamos a comer cola de tubo a pensar ser gelado ou a borracha a imitar pipocas. Quando passamos ao segundo ano, sentiam-nos "grandes" pois já não éramos as mais novinhas da escola, deu asneira esta sensação. Acabamos a dar paulada velha aos meninos mais novos do primeiro ano, que facilmente quase recebemos paulada também do professor deles em castigo do que fizemos. Não foi muito bonito, mas hoje riu-me imenso disso. Conseguia ficar horas a contar-te histórias de rebolar a rir que tenho com ela.
Durante toda o meu percurso no primeiro ciclo, estive sempre entre os melhores alunos da turma. E curiosamente com uma tendência quase "anormal" de saber escrever mais do que um menino/a  da minha idade. A Professora Lucília, ainda hoje se recorda de corrigir os meus testes de português e deitar as mãos á cabeça quando chegava a parte da composição/redacção. Aquilo que todos os meninos odiavam fazer e nunca sabiam o que escrever, eu tinha ideias e escrevia por mim e pela turma inteira. Ainda hoje ela se ri quando me vê e diz "eles pequeninos, tinham de escrever três ou quatro linhas e ela já me vinha com textos de uma página com histórias que nem o diabo lembra", recordo-me de ela contar-me que estava em casa a corrigir testes e quando chegou o meu dizer-me que ria à brava, quando numa composição de um teste decidi inventar uma história em que levei uma centopeia ás compras de sapatos e isso ser um problema muito chato para ela. 
Foi na escola primária que descobri que a minha vocação, era sem dúvida LETRAS e de longe os aborrecidos números que tão exatos eram, principalmente para mim, que toda a liberdade do mundo tinha em mim.

Bem, já é tarde e esta semana prometo que voltamos a falar. Estou a morrer de sono e acho que já nem estou a escrever direito. 

Até já Camila
A tua Sem jeito

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Trúz trúz! Quem é ? É o PUM outra vez!

Bem é incrível em que de cada vez que quero dar seguimento há minha história. algo me puxa novamente para o presente para te contar alguma coisa particularmente menos boa que tenha ocorrido. E, deste modo é quase oficial dizer que vamos andar aqui em analepses e viagens no tempo entre o passado e o presente. 
Lembras-te, á cerca de duas ou três cartas atrás contar-te um pouco sobre o meu pânico a carros/estrada? Provavelmente sim.
Não é tarde nem é cedo, para a vida brincar mais um pouquinho com os meus receios. 
Precisamente anteontem, caminho da agência, a conduzir o meu Renault Clio da minha idade, pois já sabes que não tenho qualquer brio nos carros, houve outro PUM.
Estamos em pleno Agosto, suposto auge do Verão, em que depois de trabalhar numa agência de viagens percebi que o mês de Agosto têm de tudo menos de auge (apenas preços exorbitantes), quando o céu resolveu chorar. Chovia bastante, e claramente estamos a falar das tão apelidadas "primeiras chuvas". 
Travei, até com alguma antecedência numa estrada nacional, para deixar passar uma senhora que se meteu em modo "campeã" numa passadeira a passo corrido com medo da chuva, mas com pouco medo de ser varrida por um carro, por sinal. Não foi uma travagem brusca mas também não foi a mais natural do mundo. 
E em fracções de segundos ouvi outra vez aquele barulho. O PUM. O carro a desviar-se ligeiramente para um lado e as minhas mãos completamente cravadas ao volante. 
Não pensei de quem seria a culpa ou não, ou sequer no possível estrago envolvente. Nada. Só outra vez aquele barulho em que parece que me leva outra vez ao acidente. Que me lembra mais uma vez que os carros não são seguros e que é isto que pode sempre acontecer. Que não há o mínimo controlo sobre estas coisas que usamos diariamente. Alimenta ainda mais aquela voz que me diz sempre que entro num carro, "vai acontecer alguma coisa". Dá-lhe tanta força, que por mais que eu a tente calar, várias circunstâncias me provam sempre o contrário. 

Tenho carta à cerca de três ou quatro anos.  Além daquele grande acidente e de todo o medo que já existia proveniente de sei lá onde, já me aconteceu uma lista de situações que lentamente alimentaram ainda mais essa voz. 

Tinha carta a um ano. Ia a caminho do ginásio, quando a vontade de levantar ferro era bem diferente da de agora, em pleno mês de Dezembro. 
Claramente, ao acréscimo deste mês vêm a chuva torrencial, que nesse dia provocou uma série de acidentes na estrada. Precisamente na curva, onde o Bruno teve o acidente e infelizmente faleceu, tinha ocorrido um acidente a uns minutos, onde a policia teria chegado nesse mesmo instante ao local. Onde estava o erro? Uma curva de visibilidade reduzida, com inclinação, e ausência de sinalização do acidente que tinha ocorrido, consequentemente o carro à minha frente estancou-se para não atropelar um policia. 
Não é preciso dizer que a minha Seat Ibiza, ficou sem literalmente sem dentes depois de ir ao traseiro de um Mercedes, pois não? Mais uma vez, um PUM na minha cabeça que ficou a ecoar durante uns dias e mais um alimento aquela vozinha má que me lembra das inseguranças da estrada. 
Mas não fico por aqui, calma. Há outro. 

Cerca de dois anos depois, penso que seria altura de Primavera talvez Março ou Abril, estava a vir da cabeleireira em direcção a casa. 

Um entroncamento no qual o conheço bastante bem, pois era habitual fazer aquele caminho para casa todos estes anos. Então imagina, estás a sair à estrada e o teu objectivo não é virar nem para a direita nem para a esquerda, mas sim seguir em frente num outro caminho. Ou seja tens, literalmente de atravessar a estrada. A curva que faz do teu lado esquerdo, é extremamente fechada, para contornar isso colocaram um espelho para melhorar a visibilidade de carros que pudessem estar a circular nessa via. Mas têm que haver sempre um gajo/a burro não é ? Esse mesmo, que estacionou uma carrinha de transporte de mercadorias (ou seja muito pequena, portanto) na faixa contrária ao espelho. Ou seja eu apenas via a lateral da carrinha no espelho e zero possíveis carros. Contudo tinha de avançar não é?
Arranquei devagar e meia a medo, na esperança de não bater em nenhum carro que estivesse a circular à minha esquerda nessa curva. Pois, mas a verdade é que me esqueci que a estrada tem dois lados e existe, uma direita. E PUM outra vez. 

Claro que a culpa foi minha, visto que tinha stop e todas as normas do código que se sobrepõe ao facto de ter uma carrinha estacionada numa curva, e a senhora que bateu contra mim vir em claro excesso de velocidade. Visto que, eu estava a arrancar o carro, estamos a falar de uma pequena velociadade "a medo" de talvez menos 10 ou 5 km/h nunca faria os nossos carros rodopiar. E pelas leis do tempo e da física, provavelmente iria bater na lateral da frente do carro dela ou no máximo da porta dela, e nunca quase na lateral da mala. 

Isto para te explicar o acidente de forma racional, quase como um relatório de peritagem, para entrares dentro da situação. 
Fora isso, fiquei um horror de tempo dentro do carro com as mãos coladas ao volante. Começaram a surgir imensas pessoas à volta do meu carro, mas eu fiquei ali uns minutos, meia desligada do mundo com aquele som a ecoar na minha cabeça. Além disso, todos uns batimentos cardíacos descontrolados, sensação de náusea, língua fria e todo um relatório clínico que já deves ter percebido. 



Isto para te dizer, que não basta toda a sensação desconfortável que ou os carros, ou a estrada me transmitem, eu ainda tenho um pressagio que chega a ser quase oculto, em estar sempre no local errado à hora errada. Dado que em quatro anos, estamos a falar de um número total de 4 acidentes em que estive envolvida. Ou era passageira, ou fui culpada ou fui vitima. 
Agora, assim que estiveres a ler isto estás a preparar um tónico de água benta para eu xafordar-lo no focinho de cada vez que entrar num carro não é? Pois. Eu também já pensei no mesmo. 

Mas acho que depois te ter explicado, na carta anterior o outro acidente e agora estes episódios, que depois de ler isto, até tem um pingo de piada, já me compreendes melhor não já? 


Diz que sim!


Até já Camila, 
A tua Sem Jeito



PS1.: Até á  próxima carta vou ver se não me acontece nada entretanto, que precise de te contar, para ver se retoma-mos a minha história. 
Não sei porquê, tudo isto que te falei é um trauma enorme para mim, mas ao escrever isto para ti, sinto que fui invadida por uma onda enorme de sarcasmo e sentido de humor, que nunca pensei ter com este tema. 

PS2.: Adotei uma gata bébe, sabes que nome lhe dei? O teu. Camila. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Chorona

Sei que já não venho aqui à algum tempo, mas feliz ou infelizmente esta época alta de Agosto tem dado trabalho para dar e vender na agência. 
Passei por aqui para te dizer que me tenho sentido ligeiramente melhor, mais bem disposta, mais tranquila e penso que estarei no bom caminho para esta fase se perdurar e ressuscitar a Susana que há muito já andava perdida. 
Contudo, não vou deixar de te contar a minha história. 

Depois de falar da minha fobia eminente a carros em que te contei precisamente por estar constantemente presente no meu quotidiano vou voltar outra vez atrás no tempo onde fiquei a uma ou duas cartas que te escrevi. 
Após a morte do meu avô, lembro-me de uma fase bastante caricata que durou relativamente pouco tempo - a entrada na pré primária. Uma estadia bem curta por aquelas bandas.
Se não estou em erro, penso que a minha entrada para a pré, foi precisamente uns meses antes dele falecer, visto que ainda tenho presente algumas imagens de raspão da carrinha Toyota dele a vir-me buscar ao portão mais cedo que o costume. 
Odiei a pré-primária. Sentia-me uma sobredotada ao lado das outras crianças que apenas sabiam brincar e pouco diálogo me traziam. Lembro-me de tentar conversar com elas, mas na maioria das vezes sem sucesso, o que levou a uma solidão muito grande da minha parte. 
Geralmente, acabava a brincar sozinha, pois ninguém gostava de mim e cheguei até a ser apelidada de "chorona" pelas próprias educadoras. Sim, porque de cada vez que entrava lá, fazias muito bem sentirem a minha presença. Lembro-me daqueles pequenos compartimentos na salinha em que lembravam divisões de uma casa em modo miniatura, brincar sozinha, dotada do meu orgulho que longo prazo se fez sentir quando se aproximavam de mim. 
Foi aí que comecei a ter o meu primeiro contacto, mais próximo com as cores e a arte, adorava fazer desenhos, pintar todos os livros de formas e feitios e assim passei parte do meu tempo, até ver ansiosamente a minha mãe pela janela da sala. 
Consequentemente, as educadoras convocavam reuniões com a minha mãe, argumentando que era uma menina anti-social e de feitio vincado, ou neste caso exageradamente vincado e que muito possivelmente o meu percurso escolar futuro poderia vir a ser bastante complexo, sendo aconselhado um acompanhamento psicológico o mais breve possível. 
Não as culpo, contudo, aquelas senhoras desistiram de mim e nunca se aperceberam que a minha diferença das outras crianças não seria necessariamente má, e claramente todas essas suposições sobre o meu percurso escolar caíram em vão. 
Cresci entre adultos, sem irmãos e apenas com um primo. A minha capacidade de comunicação e diálogo instaurou-se de uma forma bastante precoce, pelo que quando as outras crianças se limitavam a brincar, eu já sentia necessidade de conversar sem precisar de grandes bonecas e legos. Daí eu não gostar das outras crianças e elas muito menos de mim. 
Levando isto á escala infantil, transforma-se em birras, choradeira, bofetada na cara de quem se aproximava e todo inferno que instaurava em mim quando ouvia a palavra "escolinha". 
Lembro-me de nos intervalos ir conversar com as senhoras da cantina, enquanto todas as outras crianças faziam uma série de coisas estranhas que não me identificava. 
Todo este percurso estendeu-se por espécie de um estágio na pré primária que não se alongou mais que 7 ou 10 meses. Foi o máximo que me aguentaram lá. 
E, felizmente, a minha mãe percebeu que eu apenas era diferente, com as minhas razões e do ambiente onde vinha,  e não uma singela menina "chorona" como me tratavam. 

Meses mais tarde, entrei para o 1º ciclo onde nada destes diagnósticos anti sociais ocorreram, muito pelo contrário precisava de fita cola para me calarem. 
Mas isso depois conto-te. 
Só te contei isto, para perceberes que este mundo cinzento e de pouca imaginação, já me chama de maluca ainda fazia eu chichi na cama e tiravas ranhetas do nariz. 

Até já Camila, 
A tua Sem jeito