terça-feira, 16 de julho de 2019

O primeiro dia mau

Vou contar-te a minha história. Vou fazer de ti a minha máquina do tempo, há quem diga que faz bem voltar ao passado e arrumar as coisas que ficaram desarmadas, na nossa mente, claro.
Sinceramente, não sei bem quando isto tudo começou ao certo. Sei que existe um período em que é quase como um "marcador" em que daí em diante me tornei inconstante, sabes?
A minha mãe, á anos que conta a história do dia em que eu nasci, em desde esse dia, já estava escrito algures em algum manuscrito da história, que ia ter um temperamento difícil.
Desde um parto que correu menos bem, a uma genética forte em feitios complicados, o meu pediatra disse bem cedo á minha mãe "poderá ser uma menina mais acelerada".
Bem, deitem "acelerada" no assunto, que desde então foram poucas vezes que conheci o pedal do travão.
Na minha infância, fui criada maioritariamente pelos meus avós maternos, sempre num meio muito adulto, visto que era neta e filha única. Todos diziam que falava "como uma adulta", consequentemente de todo o diálogo que ouvia ser de adultos também. Hoje, sou fascinada pela arte de comunicar, provavelmente oriunda já desses tempos.
Lembro-me, de forma muito viva do meu avô. Também não me perguntem porquê. Mas é quase como se até aos meus 6 anos, eu não tivesse pais. Não me lembro de absolutamente nada até essa idade, a não ser do meu avô. As supostas férias anuais no Algarve, aniversários com fotos carismáticas, a minha mãe, o meu pai, a minha madrinha, o meu primo (lado paterno), é como se fossem varridos da minha biografia.
Contudo, há uma imagem exageradamente presente que define a minha infância. Um homem de cinquenta e poucos anos, de estatura média, e olhos azuis que costumava jantar numa mesa redonda de plástico, branca, ao fundo da sala enquanto via o telejornal da Sic. Lembro-me de levar-me a passear pelo campo, logo a seguir a esta imagem. Era uma rotina. Lembro-me do fato-macaco habitual dele em tons azul marinho. Lembro-me da gargalhada dele. Lembro-me de ele me trazer brinquedos quando ia a Fatíma e de toda a gente o adorar. Lembro-me dos camiões e carros a entrar e a sair constantemente, sempre com trabalho.  Lembro-me com uma imagem tão viva, que há quem diga, que de tão pequena que eu era é impossível ter retido tão bem, tantos pormenores. 
E daqui, Camilia, conto-te o meu primeiro dia mau.
Lembro-me do dia em já não me levou mais a passear nos campos. Guardei num cartão de memória e ficou aqui perdido no meu disco. Vou mostrar-te.

Era Verão, Agosto, final da tarde, quando uma enorme algazarra se instalou na casa da minha avó. A mina mãe, a minha tia, e o meu pai, subiam e desciam as escadas que davam ao quarto dele. Penso que toda gente foi lá, menos eu. A minha mãe pediu-me firmemente para que ficasse atenta da varanda, caso visse alguma ambulância chegar. Sem perceber o que passava, apenas fiquei pregada ao chão a cumprir a sua ordem.
A ambulância chegou. Corri para dentro da cozinha, com medo. A minha avó estava lá. Abriu devagarinho a porta, quando as sirenes já tinham acalmado. Escondi-me entre as saias dela, e vi pela ultima vez o meu avô.

A minha mãe levantou-me cedo. Disse-me para vestir bonita, pois íamos ver o avô. Lembro-me daquela pura inocência de pegar numa blusa azul que a minha mãe odiava, mas para mim era a melhor do armário.
Desci as escadas e antes de tomar o pequeno almoço, a minha mãe pediu-me para chamar a minha tia, pois provavelmente, iríamos juntas.
Fui a correr, naquela pressa de criança que os adultos não entendem. Quando entrei, a casa estava escura. Não existia qualquer movimento. Um escuro e um parado estranho, percebes?
Virei a esquina do corredor, que dava à cozinha. A imagem da minha madrinha. Estava amarrada ao telefone, chorava e contorcia-se. Hoje, sei o que lhe disseram.
Saí a correr. 
Rapidamente, entrei no meio de uma confusão de adultos novamente. A minha mãe estava apressada de um lado para o outro, o meu pai recebia pessoas à porta que souberam a noticia. Hoje sei que essas pessoas eram amigos, clientes e familiares do meu avô. Entre toda a confusão, eu passeava entre os cantos da casa. E aí, vi uma das imagens que jamais esquecerei na minha vida. A minha avó.
Estava deitada na cama. Berrava  e chorava descontroladamente. Nunca vi uma imagem assim. Ao escrever isto, tenho tão nítida essa imagem como se fosse agora.
Não me lembro se sai devagar ou a correr, depois disso. Sei que de seguida, a minha mãe se aninhou a mim, nas escadas, e entre lágrimas me perguntou se queria ficar ali ou ir para casa do André. Alegremente e ainda sinto essa resposta inocente, respondi, que queria ir brincar com o primo.

Hoje, choro com a saudade que não senti nesse dia. Aperta-me o peito quando falam dele. Arrepia-me as fotos em que o vejo. E lembro-me da inocência com que vi tudo o que não deveria ver.

Até já Camila
A tua Sem jeito.



Olá Camila !

Bem, pelos vistos resolvi chamar a isto "Camila". Não sei bem porquê, sinceramente nem é um nome que ame loucamente. Simplesmente calhou. 
Á uma data de anos, foi assim que tudo começou. Onde tudo parecia sem sentido á minha volta, onde tudo estava confuso, apagado, cinzento e longe resolvi começar a escrever num sítio só meu. Sem julgamentos. Criei o "Caracóis Desfeitos", onde foi o meu refugio nos piores momentos. Também não sei dar uma explicação lógica desse nome, nem de onde surgiu essa ideia. Não há história bonita por trás disto, nem nenhum planeamento elaborado de marketing e desing. Há uma cabeça confusa e um coração triste. É essa a base da receita. Não recomendo. 
Hoje procuro a mesma ajuda com a "Camila" que encontrei a uns anos com  "Caracóis Desfeitos". Momentos diferentes, anos diferentes e já duas pessoas diferentes. 
A "Camila" surge numa versão de uma jovem mulher, e o "Caracóis" numa adolescente.

Ambas com o mesmo problema. A mente. A confusão. O stress. A bipolaridade humores. O ansiedade. Os ataques de pânico. O crescimento. A maturidade. A vida adulta. O amor. Os medos. As fobias. A tristeza. A incompreensão. A solidão no meio de tudo e nada. 
Camila, dás-me uma ajudinha nisto? 

Até já Camila
A tua Sem jeito.