segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Chorona

Sei que já não venho aqui à algum tempo, mas feliz ou infelizmente esta época alta de Agosto tem dado trabalho para dar e vender na agência. 
Passei por aqui para te dizer que me tenho sentido ligeiramente melhor, mais bem disposta, mais tranquila e penso que estarei no bom caminho para esta fase se perdurar e ressuscitar a Susana que há muito já andava perdida. 
Contudo, não vou deixar de te contar a minha história. 

Depois de falar da minha fobia eminente a carros em que te contei precisamente por estar constantemente presente no meu quotidiano vou voltar outra vez atrás no tempo onde fiquei a uma ou duas cartas que te escrevi. 
Após a morte do meu avô, lembro-me de uma fase bastante caricata que durou relativamente pouco tempo - a entrada na pré primária. Uma estadia bem curta por aquelas bandas.
Se não estou em erro, penso que a minha entrada para a pré, foi precisamente uns meses antes dele falecer, visto que ainda tenho presente algumas imagens de raspão da carrinha Toyota dele a vir-me buscar ao portão mais cedo que o costume. 
Odiei a pré-primária. Sentia-me uma sobredotada ao lado das outras crianças que apenas sabiam brincar e pouco diálogo me traziam. Lembro-me de tentar conversar com elas, mas na maioria das vezes sem sucesso, o que levou a uma solidão muito grande da minha parte. 
Geralmente, acabava a brincar sozinha, pois ninguém gostava de mim e cheguei até a ser apelidada de "chorona" pelas próprias educadoras. Sim, porque de cada vez que entrava lá, fazias muito bem sentirem a minha presença. Lembro-me daqueles pequenos compartimentos na salinha em que lembravam divisões de uma casa em modo miniatura, brincar sozinha, dotada do meu orgulho que longo prazo se fez sentir quando se aproximavam de mim. 
Foi aí que comecei a ter o meu primeiro contacto, mais próximo com as cores e a arte, adorava fazer desenhos, pintar todos os livros de formas e feitios e assim passei parte do meu tempo, até ver ansiosamente a minha mãe pela janela da sala. 
Consequentemente, as educadoras convocavam reuniões com a minha mãe, argumentando que era uma menina anti-social e de feitio vincado, ou neste caso exageradamente vincado e que muito possivelmente o meu percurso escolar futuro poderia vir a ser bastante complexo, sendo aconselhado um acompanhamento psicológico o mais breve possível. 
Não as culpo, contudo, aquelas senhoras desistiram de mim e nunca se aperceberam que a minha diferença das outras crianças não seria necessariamente má, e claramente todas essas suposições sobre o meu percurso escolar caíram em vão. 
Cresci entre adultos, sem irmãos e apenas com um primo. A minha capacidade de comunicação e diálogo instaurou-se de uma forma bastante precoce, pelo que quando as outras crianças se limitavam a brincar, eu já sentia necessidade de conversar sem precisar de grandes bonecas e legos. Daí eu não gostar das outras crianças e elas muito menos de mim. 
Levando isto á escala infantil, transforma-se em birras, choradeira, bofetada na cara de quem se aproximava e todo inferno que instaurava em mim quando ouvia a palavra "escolinha". 
Lembro-me de nos intervalos ir conversar com as senhoras da cantina, enquanto todas as outras crianças faziam uma série de coisas estranhas que não me identificava. 
Todo este percurso estendeu-se por espécie de um estágio na pré primária que não se alongou mais que 7 ou 10 meses. Foi o máximo que me aguentaram lá. 
E, felizmente, a minha mãe percebeu que eu apenas era diferente, com as minhas razões e do ambiente onde vinha,  e não uma singela menina "chorona" como me tratavam. 

Meses mais tarde, entrei para o 1º ciclo onde nada destes diagnósticos anti sociais ocorreram, muito pelo contrário precisava de fita cola para me calarem. 
Mas isso depois conto-te. 
Só te contei isto, para perceberes que este mundo cinzento e de pouca imaginação, já me chama de maluca ainda fazia eu chichi na cama e tiravas ranhetas do nariz. 

Até já Camila, 
A tua Sem jeito 


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