Bem é incrível em que de cada vez que quero dar seguimento há minha história. algo me puxa novamente para o presente para te contar alguma coisa particularmente menos boa que tenha ocorrido. E, deste modo é quase oficial dizer que vamos andar aqui em analepses e viagens no tempo entre o passado e o presente.
Lembras-te, á cerca de duas ou três cartas atrás contar-te um pouco sobre o meu pânico a carros/estrada? Provavelmente sim.
Não é tarde nem é cedo, para a vida brincar mais um pouquinho com os meus receios.
Precisamente anteontem, caminho da agência, a conduzir o meu Renault Clio da minha idade, pois já sabes que não tenho qualquer brio nos carros, houve outro PUM.
Estamos em pleno Agosto, suposto auge do Verão, em que depois de trabalhar numa agência de viagens percebi que o mês de Agosto têm de tudo menos de auge (apenas preços exorbitantes), quando o céu resolveu chorar. Chovia bastante, e claramente estamos a falar das tão apelidadas "primeiras chuvas".
Travei, até com alguma antecedência numa estrada nacional, para deixar passar uma senhora que se meteu em modo "campeã" numa passadeira a passo corrido com medo da chuva, mas com pouco medo de ser varrida por um carro, por sinal. Não foi uma travagem brusca mas também não foi a mais natural do mundo.
E em fracções de segundos ouvi outra vez aquele barulho. O PUM. O carro a desviar-se ligeiramente para um lado e as minhas mãos completamente cravadas ao volante.
Não pensei de quem seria a culpa ou não, ou sequer no possível estrago envolvente. Nada. Só outra vez aquele barulho em que parece que me leva outra vez ao acidente. Que me lembra mais uma vez que os carros não são seguros e que é isto que pode sempre acontecer. Que não há o mínimo controlo sobre estas coisas que usamos diariamente. Alimenta ainda mais aquela voz que me diz sempre que entro num carro, "vai acontecer alguma coisa". Dá-lhe tanta força, que por mais que eu a tente calar, várias circunstâncias me provam sempre o contrário.
Tenho carta à cerca de três ou quatro anos. Além daquele grande acidente e de todo o medo que já existia proveniente de sei lá onde, já me aconteceu uma lista de situações que lentamente alimentaram ainda mais essa voz.
Tinha carta a um ano. Ia a caminho do ginásio, quando a vontade de levantar ferro era bem diferente da de agora, em pleno mês de Dezembro.
Claramente, ao acréscimo deste mês vêm a chuva torrencial, que nesse dia provocou uma série de acidentes na estrada. Precisamente na curva, onde o Bruno teve o acidente e infelizmente faleceu, tinha ocorrido um acidente a uns minutos, onde a policia teria chegado nesse mesmo instante ao local. Onde estava o erro? Uma curva de visibilidade reduzida, com inclinação, e ausência de sinalização do acidente que tinha ocorrido, consequentemente o carro à minha frente estancou-se para não atropelar um policia.
Não é preciso dizer que a minha Seat Ibiza, ficou sem literalmente sem dentes depois de ir ao traseiro de um Mercedes, pois não? Mais uma vez, um PUM na minha cabeça que ficou a ecoar durante uns dias e mais um alimento aquela vozinha má que me lembra das inseguranças da estrada.
Mas não fico por aqui, calma. Há outro.
Cerca de dois anos depois, penso que seria altura de Primavera talvez Março ou Abril, estava a vir da cabeleireira em direcção a casa.
Um entroncamento no qual o conheço bastante bem, pois era habitual fazer aquele caminho para casa todos estes anos. Então imagina, estás a sair à estrada e o teu objectivo não é virar nem para a direita nem para a esquerda, mas sim seguir em frente num outro caminho. Ou seja tens, literalmente de atravessar a estrada. A curva que faz do teu lado esquerdo, é extremamente fechada, para contornar isso colocaram um espelho para melhorar a visibilidade de carros que pudessem estar a circular nessa via. Mas têm que haver sempre um gajo/a burro não é ? Esse mesmo, que estacionou uma carrinha de transporte de mercadorias (ou seja muito pequena, portanto) na faixa contrária ao espelho. Ou seja eu apenas via a lateral da carrinha no espelho e zero possíveis carros. Contudo tinha de avançar não é?
Arranquei devagar e meia a medo, na esperança de não bater em nenhum carro que estivesse a circular à minha esquerda nessa curva. Pois, mas a verdade é que me esqueci que a estrada tem dois lados e existe, uma direita. E PUM outra vez.
Claro que a culpa foi minha, visto que tinha stop e todas as normas do código que se sobrepõe ao facto de ter uma carrinha estacionada numa curva, e a senhora que bateu contra mim vir em claro excesso de velocidade. Visto que, eu estava a arrancar o carro, estamos a falar de uma pequena velociadade "a medo" de talvez menos 10 ou 5 km/h nunca faria os nossos carros rodopiar. E pelas leis do tempo e da física, provavelmente iria bater na lateral da frente do carro dela ou no máximo da porta dela, e nunca quase na lateral da mala.
Isto para te explicar o acidente de forma racional, quase como um relatório de peritagem, para entrares dentro da situação.
Fora isso, fiquei um horror de tempo dentro do carro com as mãos coladas ao volante. Começaram a surgir imensas pessoas à volta do meu carro, mas eu fiquei ali uns minutos, meia desligada do mundo com aquele som a ecoar na minha cabeça. Além disso, todos uns batimentos cardíacos descontrolados, sensação de náusea, língua fria e todo um relatório clínico que já deves ter percebido.
Isto para te dizer, que não basta toda a sensação desconfortável que ou os carros, ou a estrada me transmitem, eu ainda tenho um pressagio que chega a ser quase oculto, em estar sempre no local errado à hora errada. Dado que em quatro anos, estamos a falar de um número total de 4 acidentes em que estive envolvida. Ou era passageira, ou fui culpada ou fui vitima.
Agora, assim que estiveres a ler isto estás a preparar um tónico de água benta para eu xafordar-lo no focinho de cada vez que entrar num carro não é? Pois. Eu também já pensei no mesmo.
Mas acho que depois te ter explicado, na carta anterior o outro acidente e agora estes episódios, que depois de ler isto, até tem um pingo de piada, já me compreendes melhor não já?
Diz que sim!
Até já Camila,
A tua Sem Jeito
PS1.: Até á próxima carta vou ver se não me acontece nada entretanto, que precise de te contar, para ver se retoma-mos a minha história.
Não sei porquê, tudo isto que te falei é um trauma enorme para mim, mas ao escrever isto para ti, sinto que fui invadida por uma onda enorme de sarcasmo e sentido de humor, que nunca pensei ter com este tema.
PS2.: Adotei uma gata bébe, sabes que nome lhe dei? O teu. Camila.
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